Voluntários da pátria*

Antero Greco

24 de agosto de 2012 | 11h59

A Fifa lançou nesta semana o programa de cadastramento de voluntários para a Copa das Confederações, no ano que vem, e para o Mundial de 2014. A expectativa da entidade que controla o futebol é a de que o número de interessados chegue a 90 mil e que venham de todos os continentes. No primeiro dia, mais de 35 mil preencheram a ficha de inscrição. No evento inicial, que serve de prévia para a competição maior, 7 mil serão chamados. Depois, a vez de outros 15 mil.

O trabalho espontâneo é das atividades que mais merecem admiração. Tiro o chapéu para quem dedica parte do tempo para obras assistenciais. É um alento saber que há quem se preocupe com doentes, crianças, órfãos, velhinhos sem esperar nada além de um sorriso, se tanto. É exemplo de doação.

O trabalho voluntário também é tradicional em Copas, olimpíadas e manifestações esportivas semelhantes. A alegação dos responsáveis pela organização é a de que, dessa maneira, se dá oportunidade para pessoas de todas as idades se sentirem parte integrante de acontecimento relevante e histórico. Há o contato com gente de todo canto, é ocasião para confraternização e prestação de serviço em nome da pátria, sinal de simpatia e disponibilidade de anfitriões, etc.

Não duvido disso, já cruzei com muitos voluntários simpáticos e receptivos (e algumas “malas” também) nos Mundiais que cobri. Mas são explicações que não me comovem nem convencem. Copa das Confederações e Copa do Mundo não são ocorrências beneficentes, a realização delas não se deve a causas humanitárias, sociais, culturais ou políticas.

Trata-se de negócios – e altamente lucrativos. A cada nova edição, aumentam os valores arrecados com ingressos, direitos de transmissão para meios de comunicação, venda de produtos licenciados, marketing e publicidade. A Fifa enche as burras, e nas contas dela falar em centenas de milhões de dólares equivale a eu e você discutirmos o preço do cafezinho quente no bar da esquina.

Por que, então, não prever no orçamento um ordenado para quem trabalhar nesses eventos? Não refresca nada a Fifa estimar gastos de R$ 30 milhões com uniformes, alimentação e transporte para o batalhão que vier a ser escolhido. Era só o que faltava, negar lanchinho para a moçada e obrigá-la a pagar pela vestimenta e pelo ônibus. O custo com hospedagem fica por conta do cidadão.

O lucro não seria menos fabuloso e a Fifa daria demonstração, na prática, de que é uma entidade com profunda preocupação com justiça social. Seus cartolas poderiam depois bater no peito e dizer, com razão, que a Copa do Mundo oferece empregos, temporários mas diretos, e que parte do que foi apurado fica no próprio país-sede. Faria bem para a imagem, que ficaria menos desvinculada da avidez por grana que a marcou nos últimos tempos.

Mas milhares acham que é um grande barato trabalhar para a Fifa sem receber. Joseph Blatter e assessores – todos muito bem pagos – sabem disso. Talvez um aspone brasileiro deles pudesse soprar-lhes uma música de Adoniran Barbosa, que diz: “Tocar na banda, pra ganhar o quê? Duas mariolas e um cigarro Iolanda….”

A seleção, de novo. Mano Menezes divulgou a lista de convocados para os jogos contra África do Sul e China. Provocou alguma polêmica a presença de Cássio, goleiro do Corinthians em parte da campanha vitoriosa na Libertadores. Ao ver a relação, fico a cismar: pode ser que esse time surpreenda em 2014. Mas atualmente dá um desânimo pensar em seleção…

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 24/8/2012.)

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