A zebra laranja do Kruger Park

Estadão

03 de julho de 2010 | 11h55

A indesejável zebra do Kruger Park: Depois que eu tirei a foto, ela vestiu uma camisa da Holanda

A indesejável zebra do Kruger Park: Depois que eu tirei a foto, ela vestiu uma camisa da Holanda

Acordamos em Skukuza antes mesmo do sol: às 5h30 já estávamos no carro que levaria para o ‘Safári Matutino’. Estava tão escuro que eu achava que o sáfari devia ser chamado de safári noturno, mas tudo bem. O guia é meio mal-humorado e o clima está meio chuvoso, então a chance de ver algum leão caçando é realmente bastante remota.

E é o que acontece: vemos apenas os animais de sempre: girafas, zebras e búfalos, elefantes, antílopes, javalis. Nada de leão ou leopardo, felinos que se escondem em cavernas quando o tempo esfria. Vou ter que ficar com a memória dos leões fazendo amor no Rhino & Lion Park; não deixa de ser uma imagem simbólica para um urbanóide como eu, que aprendeu aqui a amar ainda mais a natureza.

Voltamos do safári e tomamos o café de frente para o rio Sabie, assistindo a uma família de hipopótamos tomando sol como se estivessem em Copacabana. Entramos no carro para continuar a explorar o Kruger Park por conta própria, principalmente agora que o dia já está claro. Pegamos o mapa e escolhemos subir até Satara, um acampamento mais vazio e localizado no coração do Kruger Park. No caminho vemos os animais de sempre, além de rinocerontes, hienas e pássaros cada vez mais coloridos.

Desta vez eu é que estou ao volante, e só agora percebo como é confuso para um brasileiro dirigir do lado errado da estrada. E não é só isso: a marcha e os controles do volante também ficam em lados inversos, por isso toda vez que vou fazer uma curva aciono o limpador do para-brisa, assim como toda vez que vou limpar o vidro, o carro atrás de mim acha que vou virar à direita. Aos poucos, acostumo.

Olha ali, à direita, uma família de girafas! Uma coisa que é legal no Kruger Park é que você não vê apenas uma girafa ou uma zebra sozinhas, mas ao lado de dezenas de outras girafas e zebras. É o que acontece aqui: há várias girafas juntas, algo que nunca veríamos em outro lugar do mundo.

Estou observando calmamente as girafas do lado direito da pista quando uma outra girafa aparece do nada do meu lado esquerdo. Cuidado! Desvio rapidamente e o carro quase capota, mas estamos de volta à pista e não há nenhuma girafa atropelada no meu retrovisor. Imagina se eu atropelo uma girafa? Minha filha nunca ia me perdoar. E nem o governo da África do Sul. Já visualizo as manchetes: ‘jornalista brasileiro pega prisão perpétua por atropelar girafa’, ou ‘família de girafas processa jornalista brasileiro’, etc. Felizmente, está tudo bem. Talvez seja melhor o Lourival Sant’Anna voltar ao volante.

Chegamos em Satara e, após um lanche rápido, cruzamos outra parte do Kruger até Orpen, portão de saída onde pegaremos a estrada de volta para Joburgo. Antes de pegar a estrada, no entanto, é hora de ver o jogo do Brasil contra a Holanda. Descobrimos uma lanchonete com uma boa TV, e é nossa salvação (ou nossa maldição, como veremos a seguir).

Quando o jogo começa, estamos sozinhos. Aos poucos, vão chegando outros turistas, curiosamente vestidos com camisetas laranja. O jogo está 1 a 1, e eles estão quietinhos. Quando sai o segundo gol da Holanda, descobrimos qual é nacionalidade deles: temos que aguentar uma turma de torcedores holandeses fazendo piadinhas (imagino que eram piadinhas, já que não falo dutch) e falando mal do Brasil. O jogo acaba 2 a 1 para a Holanda, o Brasil está fora da Copa do Mundo. É decepcionante, triste, até. Os funcionários da lanchonete estavam torcendo para o Brasil; percebo que ficam chateados também. O Brasil era o segundo time de muitos africanos, por isso eles também se sentem mal.

O Brasil está eliminado, mas a vida continua.

É hora de entrar no carro e pegar a estrada para Joburgo. Como entramos no coração do Kruger, estamos ainda mais longe de casa. O jeito é parar para dormir no meio do caminho, e é o que fazemos: entramos em Mbombela, cidade também conhecida como Nelspruit, e procuramos um hotel. Estamos tão cansados que até a tristeza dá uma trégua. Amanhã a Copa do Mundo da África continua, mas nós não estaremos mais nela. Eu não imaginava que existia uma zebra laranja no Kruger Park.

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