Como é que se diz ‘saudades’ em Zulu?

Estadão

09 de julho de 2010 | 11h57

Volto para o hotel, pego as malas e saio com a equipe do Estadão para o aeroporto. A mocinha da recepção diz que ficará com saudades da nossa turma, pelo jeito somos mais divertidos que os argentinos ou chilenos que também se hospedaram por aqui. Ela diz alguma coisa em Zulu, e acho que é justamente a tradução de ‘saudade’, complicada demais para ser reproduzida por aqui. Ela brinca que todo ano deveria ter Copa do Mundo, e eu entendo exatamente o que ela quer dizer. A Copa trouxe milhares de pessoas ao seu país, mas não só isso: trouxe empregos, movimento, dinheiro. Explico que a próxima Copa vai ser no Brasil. ‘Posso ir?’, ela pergunta, ingênua. ‘Pode, claro. Você vai se sentir em casa.’ Digo isso com sinceridade, a morena simpática de sorriso largo e cabelo esticado em um rabo de cavalo passaria facilmente por uma brasileira.

É, a viagem está chegando realmente ao fim. Escrevo agora no avião, no assento 54D do voo 224 da South African Airways de volta para São Paulo. Tento olhar pela janela, está completamente escuro. Do lado de fora, o nada. Ou melhor, ‘o vazio que, do chão, chamamos de céu’, como escreveu a sul-africana Nadine Gordimer. Tenho certeza de que ainda é o céu da África, esse vazio para onde os africanos se voltam quando querem rezar, amar, sonhar. E para onde seus animais também voltam os olhos, achando que ali vivem apenas os pássaros, aquelas asas com cores do que o arco-íris que é este país.

Se você está sozinho, eu queria te fazer um pedido. Pode parecer estranho, mas queria que você pronunciasse a palavra África em voz alta. Repita, por favor, em voz alta novamente. Fale uma terceira vez, desta vez lentamente, separando as sílabas e colocando ênfase em cada uma delas.

Que palavra linda, África.

Não, não é apenas o som mágico da combinação de suas letras que torna essa palavra tão familiar para você, para mim, para todos os povos do mundo. É outra coisa.

É porque somos todos africanos.

Ngiyabonga, África.

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