De balão, Johannesburgo a 120 metros de altura

Estadão

09 de julho de 2010 | 11h53

A Copa está chegando ao fim, a viagem também. Está muito difícil encontrar passagens para o Brasil desde a eliminação, mas consigo um lugar em um voo na antivéspera da final entre Espanha e Holanda. Tudo bem. Se o Brasil ou a África do Sul estivessem na final, faria questão de ficar. Mas a saudade já está tão forte que não vejo nenhum problema em pegar esse avião e assistir a final na minha casa, com minha família e meus amigos.

A minha mala desafia a teoria da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. Tudo bem, há tranqueiras africanas e alguns presentinhos. Mas é incrível como as nossas coisas conseguem se expandir em uma viagem; talvez elas se reproduzam durante a noite em quartos de hotel, só pode ser. De qualquer jeito, as malas estão fechadas e agora estou apenas esperando o carro.

Como estou adiantado algumas horas, olho pela janela do meu quarto e vejo o Mushroom Park, o parque do cogumelo, local onde meus olhos reconhecem como minha casa durante a temporada africana. Há um balão enorme no meio do parque, um balão que nos ajudou a voltar para casa durante algumas noites perdidas por Joburgo. Será que consigo subir nesse balão para dar uma última olhada na cidade?

Atravesso o parque rapidamente, com o olhar fixo no balão. Agora ele está no chão, à minha espera, e vejo pela primeira vez que há um funcionário cuidando da venda de ingressos para o passeio aéreo. Ele sempre esteve lá? Ele apareceu apenas quando o meu desejo de voar se manifestou subitamente? Nunca saberei dizer.

Subimos lentamente, é minha primeira vez em um balão. Chegamos ao ápice do voo alguns minutos depois, o simpático funcionário me explica que estamos a 120 metros de altura. É tão calmo que não dá medo, pelo contrário. Por isso os anjos são tranquilos. A vista em 360º de Joburgo mostra que a cidade não é bonita, não há nenhum ponto turístico que se destaca dos outros. Mas é uma cidade bastante arborizada, pelo menos é a impressão que dá, e daí lembro que o balão está voando sobre o elegante bairro de Sandton. Há muitas árvores e qualidade de vida por aqui. Mas logo ali, na favela de Alexandra, atrás de um shopping center, espalha-se uma mancha de pobreza.

Daqui de cima também é possível ver o coração de Sandton, a Nelson Mandela Square, os luxuosos hotéis Michelangelo e Radisson. Daqui se veem os vários condomínios fechados de Sandton, e entende-se ainda melhor o sistema de muros que opõe não apenas brancos e negros, mas ricos e pobres, não importa a qual das cores do arco-íris sul-africano eles pertençam.

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