De volta para casa. E ‘Verão’, um livro para todas as estações

Estadão

28 de junho de 2010 | 06h21

Trailer de ‘Desonra’, filme com John Malkovich baseado no livro de J.M. Coetzee. O livro é melhor, mas o filme também é muito bom

O dia seguinte já amanhece naquela correria: somos um grupo de quinze jornalistas e alguns vão pegar avião, outros vão de carro alugado, cada um com um horário diferente… enfim, uma confusão. Mas, como diz o Fernando Sabino, tudo dá certo no final; se não deu certo, é porque ainda não chegou no final.

Minha turma é a dos que estão no voo de volta para Joburgo; lá vamos nós para o aeroporto de nome mais simpático que vi nos últimos anos, o King Shaka, homenagem ao rei zulu. A cidade de Durban, só para lembrar, fica numa região chamada KwaZulu-Natal. O Natal foi incorporado porque o navegador Vasco da Gama, quando contornava a África para chegar às Índias, avistou a cidade litorânea no dia do Natal. Quer dizer, se o dia estivesse nublado e o Vasco só pudesse avistar a cidade seis dias depois, a região se chamaria KwaZulu-Réveillon.

Chegamos a Joburgo morrendo de fome, não porque a viagem tivesse sido longa (uma hora de voo), mas porque… estávamos com fome mesmo. Mas sem nosso querido produtor Robertinho, como vamos voltar do aeroporto para Sandton, para algum restaurante na velha e boa Madiba Square? Arriscamos pegar o Gautrain, o novo trem metropolitano inaugurado literalmente na véspera da abertura da Copa. Qualquer cidade decente do mundo tem um metrô que liga o aeroporto a algum ponto central. Graças à Copa, Joburgo agora tem o Gautrain. Pelo jeito, vamos ter que esperar a Copa no Brasil para ter algo parecido em São Paulo e no Rio. E rezar muito para esse trem não ir parar no bolso de algum político.

O Gautrain ganhou esse nome ridículo porque Joburgo fica na província de Gauteng. Sacou? Bele-zu-ra? Gauteng, trem… Gautrain. Seria mais ou menos como batizar o trem que leva à cidade de Teresina de ‘Tremresina’, ou o metrô no estado de Mato Grosso de ‘Metrô-Grosso’. Bem, já sabemos que o humor não é o forte dos sul-africanos.

Aeroporto de O.R. Tambo, Gautrain, Sandton, restaurante. E lá vamos nós experimentar um típico sushi sul-africano no YoSushi!, um lugarzinho descoladinho e pequenininho pertinho da Mandelinha Squarezinha. O atum e o salmão estavam OK, mas acho que seria melhor se eles continuassem caçando antílopes, se é que você me entende.

Apesar da correria geral do trabalho, tenho conseguido ler um pouco antes de dormir. Trouxe apenas livros de escritores sul-africanos, para manter o clima e… porque eles são bons, mesmo. Um país não tem dois prêmios Nobel de literatura à toa.

Um deles é a escritora Nadine Gordimer. Estou lendo ‘Beethoven era 1/16 Negro’, livro de contos em que essa filha de imigrante judeu com mãe inglesa destila todo seu veneno contra o apartheid, usando histórias simples do dia a dia para mostrar o absurdo do regime. Nadine, que ganhou o Nobel em 1991, tem uma linguagem dura e seca, sem adjetivos, com muita referência histórica e algumas construções formais bastante complexas. Sem querer desmerecer o talento da escritora, acho que o Nobel de Nadine foi mais político do que literário, já que Nelson Mandela havia sido libertado no ano anterior. Pensando bem, o Nobel é quase sempre político, não? Com raras premiações incontestáveis, como o nosso recém-eterno Saramago.

Outra dessas premiações justíssimas foi a que deu o Nobel em 2003 para John Maxwell Coetzee, mais conhecido com J.M. Coetzee. Não gosto muito de usar a palavra gênio para descrever um escritor, mas ela cai perfeita nesse sul-africano-africâner nascido na Cidade do Cabo em 1940. Já li ‘A Vida e o Tempo de Michael K.’, ‘Desonra’, ‘Elizabeth Costello’, ‘Homem Lento’, todos sensacionais. Para entrar mesmo no clima da viagem, trouxe sua trilogia autobiográfica, batizada simplesmente de ‘Infância’, ‘Juventude’ e… ‘Verão’.

Comecei de trás para frente, e ‘Verão’ já é um dos livros de que mais gostei em toda a minha vida. Coetzee escreve incrivelmente bem, usa as metáforas que você gostaria de ter usado, mas nunca teria o talento para isso (estou falando de mim), arquiteta o tempo das frases de maneira que elas sobem e descem no ritmo da respiração do leitor, arte que só os grandes mestres dominam. Coetzee entra fundo na sua cabeça, e depois sai de lá leve, pisando na ponta dos pés, como uma vespa que pica a vítima e não está mais lá quando a dor começa.

‘Verão’ é uma autobiografia bastante original. O narrador é um jovem escritor que pretende escrever a biografia do próprio Coetzee. Para saber mais sobre detalhes de sua vida pessoal, sai em busca das mulheres que foram importantes para Coetzee. O livro são justamente as entrevistas com essas mulheres. Além da narrativa fugir do clichê (ela usa a metalinguagem na medida certa, sem os exageros que viraram moda no pós-modernismo), não se sabe ao certo o que realmente é ou não verdade ali, mas isso é o que menos importa. As opiniões dessas mulheres sobre o escritor são cruéis, curiosamente duras com ele de uma maneira que não se esperaria de um autor que usa esse recurso. O que suas ex-namoradas (os) diriam de você? Seu orgulho não falari mais alto? O de Coetzee, não.

Em vez de se auto-elogiar, ou de pelo menos dosar as opiniões femininas a seu respeito, as mulheres de Coetzee derramam uma lista de críticas sobre ele, principalmente como homem. Psicanálise? Autobiografia? Ficção? É tudo tão misturado que não se sabe onde começa uma ou onde termina a outra. Uma obra-prima não apenas sul-africana, mas global.

Ngiyabonga, Coetzee.

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