Futebol 3D e a balada mais caótica da África do Sul

Estadão

19 de junho de 2010 | 13h24


Shakira canta ‘Waka Waka (This Time for Africa)’, hino oficial da Copa do Mundo: Imagine esse clipe em 3D

Depois de alguns dias freqüentando a região de Melrose Arch, me bateu uma pequena saudade da velha e boa Nelson Mandela Square, local onde eu e meu estômago passamos bons momentos no início da viagem.
Nada mais justo, portanto, do que comemorar a chegada da sexta-feira (como se os dias da semana fizessem alguma diferença para mim aqui) com a já tradicional bisteca de meio quilo do Ghirardellis, um clássico da gastronomia ‘Joburguiana’ (sim, esse adjetivo ficou horrível).

Talvez os médicos não recomendem, mas para fazer a digestão eu decidi encarar uma sessão de cinema 3D na tenda montada no centro da Mandela Square. Ainda não tinha entrado lá, e a única impressão que eu tinha sobre o local é que ele estragava a vista da praça. Lá dentro, no entanto, minha opinião mudou: futebol em 3D é mesmo uma experiência incrível.

O cinema começa exibindo gols e jogadas em 3D de partidas antigas, e o efeito não é tão bom. Mas quando eles exibem trechos dos últimos jogos desta Copa, que já foram filmados em 3D, a coisa muda: são imagens sensacionais que fazem você se sentir dentro do campo.

Se essa Copa já está sendo filmada com essa tecnologia, fiquei pensando como será, por exemplo, a transmissão da Copa de 2026 (se o mundo não acabar antes, claro). O que pode ser mais incrível do que o 3D? Acho que veremos algo ainda mais alucinante. Você vai poder escolher qual jogador vai querer ‘ser’, por exemplo, e poderá ver o jogo a partir dos olhos do cara. Pensando bem, isso nem está tão longe assim, é só o jogador usar uma faixa na testa com uma micro-câmera 3D embutida, por exemplo. E uma micro-câmera 3D instalada no bico da chuteira de um artilheiro, então? Não seria genial? Se alguém inventar isso algum dia, você está de prova de que mereço uma fatia dos direitos autorais.

O cinema passa ainda comerciais estrelados por jogadores famosos (por que o futebol é sempre mais dinâmico nos comerciais e videoclipes?), cenas de outros esportes e clipes musicais. Tenho que admitir que, apesar de achar muito legal essa história de futebol e tal, a melhor imagem do cinema 3D foi o videoclipe da Shakira cantando ‘Waka Waka (This Time for Africa)’. Tinha marmanjo do meu lado abraçando… o ar.

Sexta-feira, noite um pouco mais quente que as outras… Que tal mais uma baladinha por Joburgo? Boa ideia, essa viagem precisa de um pouco mais de animação.

Meus colegas do Estadão me acompanharam ao The Baron, mistura de restaurante e pub um pouco afastado de Sandton, bairro onde estou morando (‘morando’ é bom). Ao contrário do Latinova e do Moloko, onde eu era praticamente o único branco, o The Baron estava completamente lotado de brancos, e os únicos negros por lá eram os garçons e os seguranças. Não tenho nada contra a interação entre os povos, só recomendo não misturar irlandeses e alemães, como o whisky Jameson e o digestivo Järgermeister, como alguns novos amigos portugueses me fizeram experimentar. Depois de algumas doses, eu comecei a ver a balada, sei lá, em 6D.

De lá, a turma toda foi para o Billy The B.U.M.S, uma balada lotada de estrangeiros e totalmente caótica. Não consegui entender até agora como funciona o serviço do local; vi alguns garçons caminhando com bandejas cheias de copos e garrafas de vidro pelo meio da pista lotada. E as pessoas pagavam os garçons enquanto dançavam, era uma loucura ultra-desorganizada até para um brasileiro como eu. Se sobrou algum copo inteiro no final da noite, deve ser porque o velho ditado que diz que Deus protege os bêbados é verdadeiro.

As pistas de dança de uma balada talvez sejam a maior prova de que o mundo está globalizado. O som é o mesmo em qualquer lugar: Black Eyed Peas, Alicia Keys, Fatboy Slim, músicas eletrônicas todas iguais. Até que o DJ perguntou se havia na casa alguém do Brasil (essa é a hora em que a gente levanta os braços e emite sons primitivos), e sob aplausos tocou a música mais brasileira da atualidade: o funk carioca. Vinícius de Moraes e Tom Jobim devem ter se virado no túmulo ao saber que a Garota de Ipanema foi trocada por um bando de popozudas rebolando em cima do balcão. Vergonha do nosso novo produto de exportação? Um pouco. Mas desconfio de que não terei poderes para impedir que o batidão vire a versão pós-moderna da Aquarela do Brasil.

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