Nas passarelas da África Fashion Week

Estadão

01 de julho de 2010 | 17h45

A modelo da Xuly Bet pediu desculpas à plateia porque enfiou sem querer o dedo na tomada antes do desfile

A modelo da Xuly Bet pediu desculpas à plateia porque enfiou sem querer o dedo na tomada

Quando fiquei sabendo que viria para a Copa do Mundo, dei uma olhada na agenda para saber quais eventos aconteceriam em São Paulo nessa época. Nada de muito importante, já que a Seleção praticamente monopoliza as atenções do país. Vi, no entanto, que perderia a São Paulo Fashion Week, evento que costumo comparecer para acompanhar os últimos hypes do mundinho e saber tu-do sobre as próximas tendências do verão/inverno. (Desculpa, não consigo parar de rir.)

Tudo bem, pensei. Vou perder a Fashion Week em São Paulo e ninguém vai notar a minha falta. Talvez só a Gisele Bündchen, no máximo.

Qual não foi minha surpresa quando abri o jornal The Star outro dia e fiquei sabendo que eu estaria em Joburgo durante a… Africa Fashion Week. Já que perdi o evento em São Paulo, nada melhor do que me redimir diante das Fashion Victims africanas.

Entrei em contato com a assessoria de imprensa da AFW e disse que queria cobrir o evento. Ela me perguntou se eu era jornalista de moda. Disse que não exatamente, mas adoraria acompanhar os últimos hypes do mundinho Zulu e saber tu-do sobre as próximas tendências do verão/inverno sul-africano. Desta vez eu não ri, então ela acreditou. E me deu convites para todos os desfiles.

Confesso que estava muito curioso para saber como seria uma semana de moda africana, descobrir como ela é em comparação com a de São Paulo. Desculpe pela decepção: é mais ou menos a mesma coisa. As modelos são magrelas, as pessoas se vestem de maneira estranha/engraçada, todo mundo usa mochilinhas (nunca entendi as mochilinhas), os estilistas se acham, os VIPs querem aparecer e os jornalistas só querem saber de brindes e boca livre.

A única coisa realmente diferente é a cor da pele sob os vestidos: enquanto no Brasil há cotas para negros nos desfiles da SPFW, aqui 90% das modelos são negras. Será que existe um regime de cotas ao contrário? Nah.

Além de aproveitar o boca livre (com direito à espumante sul-africano e gigantescas coxas de galinha frita como canapé fi-nér-ri-mo), ainda tive o prazer de assistir a alguns desfiles. Vi a coleção nova da marca Xuly Bet, criada pelo simpático estilista Lamine Badian Kouyaté, nascido e criado no Mali.

(Será que isso faz dele um cara Mali-criado? Desculpe, não resisti a piadinha.)

Não sei se eu gostei ou não; não havia nenhuma jornalista de moda amiga minha para dizer qual era a minha opinião. Sei que havia muitas peças de vinil, couro e peles de animais, um ar meio assim, tipo Savana-Urbana. O Lamine ficou tão feliz que ao final do desfile ele entrou pulando, como se o Bafana Bafana tivesse vencido a Copa do Mundo.

Daí veio o desfile de Sakina M’as, das Ilhas Comoros. Bom. Ou ruim, não sei direito. Ituen Basi, da Nigéria, foi a próxima. Foi a única a fazer referência à Copa do Mundo: o desfile começou com criancinhas correndo com bandeiras dos países classificados. Também não sei direito se gostei ou não, mas pelo menos uma opinião eu e a Anne Wintour compartilharíamos: foi bastante colorido.

Veio então o desfile de Soucha, um cara sul-africano super arrogante que eu já tinha visto antes tratando mal o garçom na fila do vinho. Mas as roupas me surpreenderam: nunca vi uma coisa tão louca na minha vida. Tinha um lá que era tão louco que a Lady Gaga poderia até usar como vestido de noiva.
Daí veio o estilista Heni, com uma coleção bastante interessante (interessante é um adjetivo bom, porque pode significar qualquer coisa). Quando ele surgiu no final do desfile, percebi que estava diante do cara mais gay do mundo – não que eu veja nada de errado com isso, como diria Seinfeld.

O último desfile da noite veio depois: David Tlale. Das duas, uma: ou ele foi muito bom, ou foi o único sul-africano da noite, já que as pessoas levantaram para aplaudi-lo antes mesmo do desfile acabar. Mas não posso reclamar do David: depois do desfile, sua assessora de imprensa veio me entregar um convite para a after-party, num lugar descolado em Sandton chamado ZAR.

Detesto dizer não para as festas do mundo fashion, mas desta vez tive que recusar. Amanhã de manhã, eu, o repórter Lourival Sant’Anna e o fotógrafo Evelson de Freitas temos um longo dia pela frente: vamos pegar a estrada e fazer um safári na maior reserva da África do Sul.

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