Um elefante furioso no meio do caminho

Estadão

02 de julho de 2010 | 19h22

Nossa, como os elefantes são lindos... peraí, esse aí não está perto demais da minha câmera?

Nossa, como os elefantes são fofinhos... peraí, esse não está perto demais da minha câmera?

Deixamos Joburgo cedinho, às seis da manhã. Lourival no volante, Evelson de navegador e eu… bem, eu encarnando um zumbi no banco de trás. Os 420 quilômetros até que passam rápido, a estrada é excelente; pouco mais de quatro horas depois, estamos no portão Malelane, uma das várias entradas do Kruger Park. O maior parque da África do Sul e um dos maiores do mundo tem uma área de cerca de 20 mil quilômetros quadrados, do tamanho de Israel. Todos os seus números, aliás, são impressionantes: já foram registrados no local 147 espécies de mamíferos, 507 de pássaros e 114 tipos de reptéis.

Não conseguiu entender a grandiosidade disso? Então vamos a informações mais fáceis de visualizar: De acordo com o último senso, feito em 2005, o Kruger tem 31.060 búfalos, 12.740 elefantes, 6.700 girafas, 2.280 javalis, 6.940 rinocerontes, 21.100 zebras, 1.000 leopardos e 2.000 leões. E, desde hoje, três jornalistas brasileiros.

Bem-vindo ao Kruger Park.

Entrar no Kruger dá a sensação de que estamos entrando na África. Eu sei, já estou aqui há quase um mês, mas não é nesse sentido de que estou falando. Não estou falando da África do Sul, de Johannesburgo ou Cape Town. Estamos entrando na África, mesmo. O amarelo das savanas dançando lentamente ao vento se perde no horizonte, e as nuvens branquinhas cobrem parte das montanhas que separam a África do Sul de Moçambique, fronteira ao leste com o Kruger Park. Há um cheiro de mato no ar, mas não aquele cheiro de mato que a gente sente nas fazendas brasileiras, por exemplo. Há algo a mais; talvez seja psicológico, mas posso jurar que há uma certa tensão no ar que obriga nossos olhos a vasculharem a vegetação à procura de rostos conhecidos.

Rostos de quem? O Kruger é o lar dos Big Five, os ‘cinco grandes’ animais mais poderosos e cobiçados pelos caçadores: leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte. São eles que mandam no parque, apesar do guardinha na minha frente se achar o dono do pedaço. Só para você imaginar, ele está vestido com uma roupinha de safári três números menor que o tamanho dele. Mas ao contrário do que você pode estar imaginando, o uniforme dele não é ridículo. Aqui é um dos poucos lugares do mundo onde você pode usar um traje safári completo e não ficar parecendo um figurante de filme do Tarzan. Mesmo se o seu traje tiver encolhido.

Entramos pelo portão Malela e pegamos a estrada rumo à Crocodile Bridge, um ponto de hospedagem pertinho de Moçambique. A ponte se chama ‘Crocodilo’ porque fica, dã, sobre o rio Crocodilo – a razão por que o rio ganhou esse nome você vai ter que adivinhar. Uma dica: não precisa pensar muito.

Não mencionei ainda, mas não temos reserva e nem sabemos onde vamos dormir: viemos tentar a sorte e encontrar um quarto. Não há vagas em Malela, e o folheto que nos entregaram no portão diz que os hóspedes devem reservar os quartos com pelo menos onze meses de antecedência. Essa informação, no entanto, é para turistas comuns, não para aventureiros especialistas em safári como nós.

Também não há vaga em Crocodile Bridge, mas pelo menos vemos dezenas de zebras, girafas e búfalos no caminho até lá. Pegamos o carro e tentamos a sorte no Lower Sabie, outro ponto de hospedagem com cerca de vinte bangalôs e área de camping. Não há hotéis dentro do Kruger, apenas alguns pontos de hospedagem com posto de gasolina, bangalôs e lanchonete.

Também não há vagas no Lower Sabie, e agora a situação já começa a ficar crítica. Afinal, já passam das quatro da tarde e escurece bastante cedo por aqui. No Lower Sabie, no entanto, descobrimos que há um pequeno bangalô com três camas disponível em Skukuza, a quase 100 quilômetros de lá. Não temos outra chance, a não ser estacionar no meio do Kruger e dormir em três no carro cercado por babuínos, impalas e sabe Deus lá o que mais (na verdade, eu sei, mas não quero pensar nisso).

Escurece realmente cedo por aqui, são apenas cinco horas e o sol já está se pondo. O barulho do motor do carro se confunde com os gritos de belos e esquisitíssimos pássaros, com asas pintadas de cores que eu nem imaginava que existiam. Uma família de javalis aposta corrida com o carro, e eles têm uma cara tão simpática que dá vontade de colocar todos juntinhos num espeto e fazer um churrasco como os das histórias de Asterix. Por falar nisso, acabo de lembrar que não almoçamos e os estômagos começam a roncar.

Pouco depois vemos alguns carros parados no acostamento. Tentamos ultrapassá-los, mas quando estamos no meio do caminho descobrimos a razão do inusitado congestionamento: há um elefante bloqueando a estrada, um gigantesco Loxodonta Africana de quase quatro metros de altura e umas cinco toneladas. Do outro lado da estrada, há outros elefantes adultos e alguns filhotes.

A situação pode parecer divertida quando você vê isso num filme; é bem diferente quando você é que está participando da cena. Garanto que é aterrorizante. Engatamos a marcha a ré, mas os carros atrás de nós nos impediam de recuar e isso parece enfurecer ainda mais o elefante. De repente, o bicho começa a andar na nossa direção, balançando as orelhas de maneira intimidadora e fazendo um barulho infernal. Tentam,os voltar ainda mais, mas os carros atrás de nós não entendem direito o que está acontecendo e não dão marcha a ré. Se o elefante decidir avançar, estamos encurralados. Será que um elefante destrói um carro? Pode ter certeza que sim. Como é que se diz ‘sanduíche de jornalistas brasileiros’ em elefantês?

O elefante para e fica nos olhando durante cinco minutos. São os cinco minutos mais longos da minha vida; vida, aliás, que está nas patas desse enorme elefante. Se ele decidir dar alguns passos, seremos esmagados e você nunca mais vai ler este blog.

Eu amo os elefantes. Eu amo os elefantes. Eu amo os elefantes.

Não falei isso em voz alta, mas talvez o elefante tenha ouvido meus pensamentos. Ele dá alguns passos para trás e desaparece entre as árvores, como se nada tivesse acontecido, como se aquele fosse apenas mais um dia comum no Kruger Park. Para ele talvez tenha sido. Mas, para mim, foi uma das experiências mais extraordinárias da minha vida.

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