Um passeio pelos vinhedos da África do Sul

Estadão

23 de junho de 2010 | 17h59

Peço perdão pelo post anterior, cujo conteúdo literário foi de certa forma prejudicado por causa do… deixa para lá. Você entendeu.

O passeio pela região dos vinhedos da Cidade do Cabo, no entanto, foi realmente muito lindo. Sol a pino, céu azul sem nuvens, temperatura na faixa dos 18 graus. Visitamos as três principais cidades produtoras: Paarl, Franschhoek e Stellenbosch. As três produzem vinhos da uva Pinotage, a mais tradicional da África do Sul. Mas cada uma também tem sua característica. Em Paarl, a mais quente das três, a especialidade são os vinhos Shiraz; em Franschhoek, os brancos; em Stellenbosch, o Cabernet Sauvignon.

Vamos começar pela degustação de Paarl, realizada na produtora KWV, uma das maiores do país. A seguir, a lista do que foi consumido:

KWV Sauvignon Blanc 2010 (razoável)
Cathedral Cellar Chardonnay 2009 (bom)
KWV Reserve Merlot 2007 (razoável)
Cathedral Cellar Pinotage 2006/07 (muito bom)
Imoya (um excelente brandy produzido pela KMW)
Muscadel 1975 Vintage (muito bom)
Licor Wild Africa Cream (ruim, muito doce)

Saindo de lá fomos para Franschhoek, cidade que deveria ser famosa por seus ótimos vinhos, mas também por ter sido batizada com a única palavra com dois ‘H’ do vocabulário mundial.

O lugar é realmente lindo, parece uma cidade de mentira. Sabe aquelas cidades cenográficas que não tem nada atrás das fachadas das casas? Pois é. Mas isso não é verdade, porque eu fui ver atrás de uma casa e vi que ela era uma casa de verdade. (É brincadeira, não cheguei a fazer isso, embora estivesse com vontade.)

Franschhoek é uma espécie de Campos do Jordão com belos vinhedos e sem adolescentes. É charmosa, cheia de bistrozinhos (sim, o nome é em homenagem à comunidade francesa que implantou a cultura do vinho na região) e tem até um evento literário anual nos moldes da nossa FLIP, o Franschhoek Literary Festival. A última edição, em maio, foi em homenagem à Copa do África (claro) e a cidade recebeu nomes como Tom Watt, autor do livro ‘The Beautiful Game’, sobre futebol, e John Carlin, autor de ‘Conquistando o Inimigo’, livro que Clint Eastwood transformou no filme ‘Invictus’, já citado por aqui.

A degustação em Franschhoek aconteceu no Dieu Donné, um lugar paradisíaco – se você acha que o paraíso não tem mar, mas montanhas repleta de vinhedos verdinhos. A lista de vinhos foi a seguinte:

Sauvignon Blanc 2009 (razoável)
Chardonnay (Wooded/Amadeirado) 2007 (muito bom, Silver Medal no Veritas Wine Show 2009)
Shiraz 2006 (bom)
Merlot 2007 (muito bom, 3 ½ estrelas da Wine Magazine)

Almoçamos no The Bistro, em Franschhoek mesmo, um ranguinho bastante razoável (para não dizer outra coisa). Pedi salada caprese e lulas fritas com arroz e molho tártaro, mas meia hora depois já estava com fome novamente.

A próxima parada é Stellenbosch, outra cidadezinha muito charmosa. Aqui, a influência é holandesa, o que pode ser comprovado pela arquitetura das casas (tetos arredondados como sapatinhos holandeses) e pela placas, todas em africâner (ou holandês, que para mim são a mesma língua). A degustação aconteceu na Neethlingshof (fale isso comendo uma paçoca, se quiser ver a chuva de farelos), outra grande produtora sul-africana com mais de um milhão de garrafas produzidas por ano. E uma das mais tradicionais também: o local foi construído em 1692. Mas calma aí: nós viemos aqui para beber ou para conversar? Então vamos à degustação:

Sauvignon Blanc 2010 (razoável)
Gewürtztraminer 2009 (muito bom, apesar do nome impronunciável)
Pinotage 2005 (razoável)
Cabernet Sauvignon-Merlot (excelente, o melhor vinho do dia)
The Caracal 2005 (muito bom)

No caminho de volta, uma paradinha no Cheetah Outreach, centro de pesquisas de animais. ‘Cheetah’, em português, é ‘guepardo’. Conversamos com uma pesquisadora sobre esse gato, e confirmo o que já sabia quando era criança (lembra que eu era especialista em felinos?): o guepardo é o mamífero mais rápido do planeta. Ele chega a 80 km/h em três segundos; corre 100 metros em seis segundos; sua velocidade máxima pode chegar a 120 km/h. Ou seja, o bicho é o máximo.

Além de guepardos, o centro tem algumas aves de rapina, como águias, falcões e corujas. Ao olhar as corujas, descubro de onde o roteirista William Peter Blatty tirou a inspiração para a cena em que a garota gira o pescoço 360 graus. O que, é possível segurar uma águia? Lá vou eu para mais uma aventura no mundo animal: a águia negra pesa quase cinco quilos e é uma das maiores aves da África. O tratador pede para eu colocar uma luva especial, e lá vem a águia. Por que ela está com os olhos vendados? Sei lá, talvez ele tenha medo que ela não vá com a minha cara (e faz muito bem).

Vinhos e águias não combinam, então devolvo o bicho rapidinho após a foto para o álbum estilão National Geographic que estou montando com as imagens da viagem.

Já que estamos falando de fotos e pássaros, em vez de aprender ‘olha o passarinho’… como é que se diz ‘olha a aguiazinha?’ em africâner?

Sim, eu sentei nessa cadeira e passei a tarde degustando ótimos vinhos

Sim, eu sentei nessa cadeira e passei a tarde degustando ótimos vinhos

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