Um restaurante com diamantes no cardápio

Estadão

06 de julho de 2010 | 15h31

A Copa está chegando ao fim, e com isso o número de jogos diminui drasticamente. O dia sem futebol permite que a equipe do Estadão consiga finalmente sair por aí para comprar presentes para as famílias e os amigos. Nada melhor, portanto, do que procurar um lugar onde se possa adquirir o campeão de audiência entre os produtos africanos para exportação.

Você pensou em peles de animais? Errou. Que tal máscaras típicas? Novamente errado. Agora, se você pensou em pequenas pedrinhas brilhantes, acertou. É isso aí: não há nada mais africano do que… diamantes.

Digamos que há, no entanto, um pequeno problema financeiro nessa equação. Queremos comprar diamantes, mas a possibilidade de um jornalista entrar numa das lojas do shopping Sandton City e sair de lá com um belo presente para sua esposa é bastante reduzida. Além disso, jornalistas são seres investigativos por natureza, e essa característica nos obriga a descobrir lugares onde os diamantes podem sair mais em conta, se é que você me entende.

Saímos em busca da lendária ‘Cidade dos Diamantes’, onde o mercado de diamantes não tem vendedoras servindo champanhe nem lojas com cheiro de perfume no ar. O local fica em Hillbrow, um dos bairros mais barra-pesada de Joburgo. Não sei se ‘bairro barra-pesada’ e ‘diamantes’ é uma combinação muito interessante, mas sou um voto vencido. Faço o sinal da cruz, rabisco um testamento rapidinho na recepção do hotel e entro na van.

Hillbrow é um bairro realmente horroroso, mas capaz de realizar algo impressionante: ele transforma o Minhocão, em São Paulo, num hotel cinco estrelas. É no coração desse lugar lindíssimo que está a ‘Cidade dos Diamantes’, uma espécie de ‘Santa Ifigênia’ de diamantes com vários prédios e um portão que mais parece a fronteira de um país. O segurança armado com uma metralhadora olha dentro da van lotada e pergunta o que viemos fazer ali.

Dizemos que somos brasileiros, gostamos de futebol e… estamos interessados em diamantes. Ele pergunta se temos reunião marcada com algum fornecedor, e logo entendo que ali é um mercado exclusivo para atacadistas. Respondemos que não, não temos encontro marcado. Mas gostaríamos de comprar diamantes para nossas mães, filhas, esposas e namoradas.

O segurança espera um minuto, olha bem para os nossos rostos. Ele nos manda estacionar o carro e entrar no restaurante ‘Jewel Restaurant’, restaurante das jóias (o nome podia ser mais criativo, mas quem sou eu para dizer qualquer coisa). Lá, devemos perguntar pelo dono, que, por medida de segurança (nunca se sabe se essa gente acessa blogs do Brasil), chamarei aqui de Senhor P. Antes do segurança abrir o portão, ele pergunta mais uma vez:

‘Aonde vocês vão?’
‘Ao restaurante.’
‘Quem vocês vão procurar lá?’
‘O Senhor P.’

Me sinto como se estivesse numa prova oral da quinta série. Mas se isso é necessário para entrar na Cidade dos Diamantes, então vamos lá.

O restaurante é claramente uma fachada para outros tipos de negócios. Quer dizer, há um cardápio e aquele cantinho no fundo parece ser uma cozinha, mas não é exatamente isso que parece atrair os clientes. Pergunto a uma garçonete se podemos falar com o Senhor P.; logo chega um homem de olhar desconfiado, indagando como sabemos o seu nome.

‘O segurança nos disse para perguntar por você. Mas se for muito incômodo, podemos ir embora, inclusive acho que já está ficando tarde…’

(Isso era meio-dia.)

‘Sentem-se ali, já vou atendê-los.’

Obedecemos rapidinho e sentamos na mesa que ele nos indicou. Logo ele volta com uma mulher, uma loiraça vestida com casaco de oncinha que devia ser bonita quando era adolescente, cerca de 150 anos atrás.

‘Ela vai mostrar algumas pedras para vocês.’

E assim chega ao fim o nosso relacionamento com o Senhor P. E começa o nosso relacionamento com… bem, vamos chamá-la de Senhora Z. (nunca se sabe se essa gente acessa blogs do Brasil).

A Senhora Z. abre um estojo de couro e começa a mostrar os diamantes. Ela explica que eles são classificados de acordo com a lapidação (formato), peso (quilate), a pureza e cor. Ela faz contas, fala sobre a personalidade das pedras. Perguntamos de onde os diamantes vêm; ela dá uma risadinha e diz que podemos ficar tranqüilos porque eles não são ‘blood diamonds’, ‘diamantes de sangue’.

A expressão, que ficou famosa graças ao filme homônimo estrelado por Leonardo DiCaprio, diz respeito às mortes provocadas pelo comércio ilegal de diamantes africanos. Acreditamos nela, não temos como provar que ela está errada. É duro pensar que pedacinhos minúsculos de vidro como aqueles podem ter custado vidas humanas. Para quê? Como algo tão insignificante pode ser tão valioso para a humanidade? Não tenho a menor ideia, só sei que o hipnótico brilho dos diamantes é fascinante – e provavelmente a resposta vem daí.

Três da tarde, hora do almoço. Vamos todos ao Primi, simpático restaurante no Melrose Arch que, por alguma razão que ninguém sabe explicar, serve comida brasileira. É verdade: o cardápio tem bolinho de bacalhau, frango à passarinho, empada de camarão e… feijoada. Peraí, feijoada em Joburgo? Manda várias! Infelizmente, não dá para dizer que é uma verdadeira feijoada. Cada babuíno no seu galho: a África fica com seus diamantes, nós ficamos com o nosso feijão.

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