Uma ilha do medo. E a vista mais linda da África

Estadão

24 de junho de 2010 | 19h30

Cela do preso 466/64, também conhecido como Nelson Mandela

Cela do preso 466/64, também conhecido como Nelson Mandela

O terceiro e último dia dessa curta temporada em Cape Town (se for para lá, por favor fique mais tempo) começa com um passeio à Robben Island, ilha onde fica a prisão que ficou famosa graças a seu prisioneiro 466/64, também conhecido como Nelson Mandela. O número tem significado simples: quer dizer apenas que ele era o preso número 466 do ano de 1964. Sim, como se Mandela fosse um preso comum. Ou melhor: um homem comum.

Para chegar à ilha, é necessário pegar um barco no Nelson Mandela Gateway, mais uma das homenagens a Madiba. Se você não souber o endereço de alguma coisa na África do Sul, é só chutar que fica na 'Nelson Mandela' alguma coisa. Já passei pela Ponte Nelson Mandela, Praça Nelson Mandela, Parque Nelson Mandela, Avenida Nelson Mandela, Estádio Nelson Mandela, Baía Nelson Mandela. Não vou ficar surpreso se quando o Mandela morrer eles mudarem o nome do país de África do Sul para Mandela. Até que não ficaria mau. Se algum dia isso acontecer, quero minha parte nos direitos autorais em cerveja.

O barco leva uma meia hora para chegar até essa ilha que, no passado, era um local para onde enviavam os leprosos do país. Faz sentido, porque desde 1636 a ilha já servia de colônia penal, provavelmente porque os caras consideravam os presos leprosos sociais e decidiram juntar todo mundo no mesmo lugar. Ao chegar, vejo que a geografia da ilha é bastante plana e sem muita vegetação. Há alguns pingüins perto do pequeno porto, um bicho com jeitão engraçado que nos faz esquecer que o lugar é um patrimônio da humanidade não pelo que ele tem de divertido ou belo, mas pelo que teve de trágico.

Robben, em holandês, quer dizer focas, nome dado graças ao grande número de focas no local. Devem ter comido todas, porque não vejo nenhuma, mas tudo bem. Todos os guias do passeio são ex-prisioneiros, então isso acrescenta uma dimensão de realidade à visita. Não quero soar desrespeitoso, mas a prisão em si não é uma coisa estilo campo de concentração, imagem que eu tinha a partir dos filmes sobre o passado de Mandela. Ela é, sim, claustrofóbica no sentido do isolamento do continente, do silêncio, da crueldade psicológica com que os presos eram tratados. Mas em termos de instalações, é um hotel cinco estrelas comparado aos presídios brasileiros.

A crueldade psicológica é feita com requinte: em Robben Island não havia prisioneiros brancos, apenas negros, ‘coloridos’ (como eles chamam os mulatos e mestiços por aqui) e indianos. Negros ficavam descalços, ‘coloridos’ e indianos tinham direito a sapatos. Negros não recebiam cartas da família, ou, quando recebiam, eram censuradas e continham apenas ‘oi’ e ‘adeus’. Na parede, uma placa nos informa que a ração diária de comida dos negros era menor que a dos coloridos ou indianos. Por quê? Simplesmente por acharem que os negros eram inferiores e não precisavam comer tanto. Ou justamente para enfraquecê-los fisicamente. Ou, sendo mais militarmente analítico, para dividir os presos. Dividir para conquistar, diz o velho ditado de guerra.

Os presos eram divididos ainda em presos políticos (que ficavam na área de segurança máxima) e presos normais, estupradores e assassinos (que ficavam na área de segurança média). Visitamos um dos campos onde Mandela e seus amigos realizavam trabalhos forçados, um lugar que ainda guarda uma atmosfera maligna. O guia explica que aquela caverna, no canto do rochedo, era ao mesmo tempo local de refeições e banheiro. Nas horas livres, que eram poucas, Mandela ensinava os outros presos a escrever, além de ensinar conceitos de cultura, liberdade, luta. O que os guardas africâneres chamavam de ‘banheiro dos negros’, eles chamavam de ‘Universidade’. Dali saíram presos que se tornaram juízes e advogados; hoje dizem que é o local representa o primeiro parlamento do país.

Perto dali ficam as celas, e aí quem sofre de claustrofobia realmente poderia ter um surto (ainda bem que eu não sofro). Não cheguei a medir, mas acredito que as celas deviam ter cerca de três por quatro metros, minúsculas. A cela de Mandela tinha um colchão, uma mesinha e um balde para as necessidades. É inacreditável pensar que ele passou 18 anos ali. Os presos retornavam às celas quando o sol se punha, depois de passar o dia quebrando pedras. Não sei o que é pior: quebrar pedras ou dormir num cubículo desses. De um lado, o mito de Sísifo; do outro, o confinamento. Como esse homem conseguiu manter a sanidade? Bem, ele nunca foi apenas um homem.

Mandela saiu dali em 1990, e o resto é história. O local hoje é um museu com passeios como esse, um dos mais populares da Cidade do Cabo. Quando estamos indo embora, cruzamos com a Seleção da Holanda, que vem visitar o lugar. Entre eles está o jogador Robben, o que leva todo mundo a fazer a mesma piadinha ‘o Robben veio na ilha dele, a Robben Island, hahaha’. Todo mundo menos eu, por duas razões: não sei quem é esse Robben, e acho que aqui está longe de ser um lugar com clima para fazer piadas.

Opa, só tenho mais algumas horas em Cape Town! Será que dá tempo de pegar o bondinho para subir até o topo da Table Mountain, aquele montanha retinha como uma mesa que circunda a Cidade do Cabo?

Táxi!

Sim, deu tempo. A vista lá de cima, a 1.600 metros acima do mar, é uma das coisas mais espetaculares que já vi. De um lado, a Cidade do Cabo, histórica, linda, espalhada como tabuleiro de Banco Imobiliário. Destaque para o estádio Green Point, que de cima parece bem mais bonito; do outro lado, praias como a Camps Bay, incrível, e outro lugar que ainda vou visitar algum dia de pertinho: o Cabo da Boa Esperança. Pode ser meio clichê, mas tenho que deixar registrado que tenho a esperança de chegar até o ponto mais ao sul do continente africano. A esperança, como dizem, é a última que morre. Eu mudaria esse ditado: a esperança só morre… quando a gente morre.

Daqui de cima a gente vê bem por que costumam comparar a Cidade do Cabo com o Rio de Janeiro. Ambas têm montanhas e mar em seus respectivos cartões-postais, mas há diferenças gritantes. Em Cape Town, a montanha fica em volta da cidade, e não há construções em suas encostas; no Rio, as montanhas cortam a cidade em praticamente todo o relevo, e há moradias improvisadas (eufemismo para ‘favelas’) muito além das bases desses morros. Cape Town é quase toda horizontal, espalhada; o Rio é tomado por prédios e sua urbanização é muito mais concentrada (além de ser uma cidade maior, claro). São cidades-irmãs, sim, mas o Rio precisa recuperar definitivamente a região ao redor do porto (promover o Fashion Rio uma vez por ano infelizmente não é suficiente). A Cidade do Cabo é a prova de que simplesmente não pode nascer uma cidade paralela nas encostas dos morros: é preciso definir um limite e levá-lo a sério.

A Cidade do Cabo também é um lugar tão diferente de Joburgo que parece que estamos em outro país. O apelido de Rainbow Nation, ‘Nação do Arco-Íris’ faz todo o sentido. A Cidade do Cabo é praticamente uma cidade litorânea da Inglaterra; há bem menos negros que em Joburgo, e a cidade parece ser muito mais cosmopolita. As tensões aqui, pelo menos nessa minha primeira impressão, são muito mais sociais do que raciais. Como nas grandes metrópoles do mundo, aliás.

Infelizmente, tenho que descer antes do pôr-do-sol, já que meu voo provavelmente não vai esperar meus caprichos. Deu tempo! Poucas coisas satisfazem mais do que a sensação de ter o dever cumprido. Ainda não acredito que deu tempo de fazer tanta coisa em tão pouco tempo, mas, como eu costumo dizer… para que dormir quando há tanta coisa interessante para ver? Quando há tantas experiências para viver? Quanto há tantos lugares desconhecidos para conhecer?

Para terminar, como é que se diz tudo isso em zulu? E em africâner? Desencana. É muita informação para um dia só. O avião para Joburgo está saindo. É bom voltar para casa.

Gostou da vista da Cidade do Cabo? Agora imagine isso em 3D

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