Vuvuzelas fazem a trilha sonora do inferno

Estadão

30 de junho de 2010 | 08h56

vuvuzelas bacana

‘Felipe, você tem problemas de audição?’
‘O quê?’

Gostaria de dedicar um capítulo especial a um dos personagens principais dessa Copa do Mundo – e espero que isso não seja visto como um elogio. Odeio as vuvuzelas com todas as minhas forças, o que não adianta nada porque elas são bem mais fortes do que eu. Quem está acompanhando a transmissão pela TV no Brasil pode achar aquele zumbido ao fundo inofensivo, até divertido. Mas garanto que quem está nos estádios da África do Sul sofre. Eu, pelo menos, sofro.

A vuvuzela é o tipo de brincadeira egoísta que só diverte quem está tocando, não importa quanto incomode o cara que está ao seu lado. Não há nada mais gostoso do que levar uma ‘vuvuzelada’ daquelas no ouvido, de supresa, e daí você se vira e vê algum idiota se divertindo às suas custas. E a dor de cabeça que o barulho provoca depois de ficar duas horas exposto a ele numa arquibancada? Super legal. Não dá nem para ouvir a torcida cantando, ou aquele ‘oooohhh!’ tradicional que se ouve no estádio quando uma jogada é boa.

Os psicólogos podem interpretar as vuvuzelas como ‘uma válvula de escape para a opressão do homem comum’, blá, blá, blá. Os antropólogos-cabeça diriam que ‘é a África exigindo que sua voz seja ouvida’, ou algo do gênero. Mas eu pergunto: que voz monocórdia é essa que precisa ser vomitada a plenos pulmões, que forma de expressão gutural é essa que rompe o silêncio de arquibancadas multiculturais com violência desnecessária, sujando o vazio dos ouvidos com sua aspereza tribal? Que tipo de mensagem os africanos querem passar? Querem ser inseridos na economia globalizada? Querem participar dos organismos internacionais? Querem encher o saco do resto do mundo?

Sim, as vuvuzelas deveriam ser proibidas, não me venha com essa desculpa esfarrapada de que é um componente cultural do futebol africano. Se fosse assim, na Copa de 2014 no Brasil será permitido batalhas campais entre torcedores de países diferentes, já que isso é ‘um componente cultural do futebol brasileiro’. Ou melhor, que tal permitir que os torcedores joguem copos com líquidos indesejáveis nas arquibancadas inferiores? Isso também é bastante tradicional em nosso futebol. Essa bobagem chamada respeitosamente de relativismo cultural pode ir para o lixo junto com as vuvuzelas.

Bem, já que estamos falando das vuvuzelas, é bom esclarecer alguns aspectos. Que tal lucrar com a surdez alheia? Clinton Currie, presidente da empresa Vuvuzela Branding Company, disse que não está dando conta da demanda pelo produto. ‘Antes da Copa vendíamos 20 mil vuvuzelas por mês, agora vendemos 20 mil por dia’, disse a empresária ao jornal The Citizen. Ela diz isso com orgulho – eu teria orgulho de pegar uma de suas 20 mil vuvuzelas e dar na cabeça dela. Sua empresa é uma das quatro fabricantes de vuvuzelas na África do Sul e suas vendas têm sido afetadas (imagine se não estivessem) pela competição de vuvuzelas chinesas.

A vuvuzela é tão popular por aqui que já existe até uma orquestra formada apenas por músicos que tocam esse belíssimo instrumento (imagine que agradável ouvir uma sinfonia de Beethoven tocada numa vuvuzela). Gostaria de saber onde eles vão se apresentar, assim posso passar antes no supermercado e comprar uma caixa de ovos. E o mais curioso é saber que a FIFA pensou em proibir as vuvuzelas, até que lançaram no mercado uma ‘vuvuzela oficial’. Se você adivinhar quem ganha royalties com a venda desse produto, ganha uma vuvuzela Made in Switzerland.

Quem é o responsável por tudo isso? Há controvérsias. Freddie Maake, morador de um subúrbio de Johannesburgo, diz que inventou o instrumento em 1965, mas reclama que nunca ganhou nem um centavo com isso. Segundo a imprensa sul-africana, oficialmente o homem por trás do sucesso das vuvuzelas é Neil Van Schalkwyk, 37 anos, o primeiro a fabricar esse produto ma-ra-vi-lho-so em escala industrial. Talvez com medo de possíveis problemas legais, esse africâner gente fina resolveu baixar o volume das vuvuzelas de sua grife: em vez dos 140 decibéis habituais, ele passou a fabricar vuvuzelas que produzem ‘apenas’ 121 decibéis de barulho. Você acha que ele é esperto? Então adivinhe qual é o outro produto que sua empresa fabrica: protetores de ouvido. Gênio. Do mal, mas gênio.

Apesar de levar o assunto na brincadeira, queria deixar registrado que as vuvuzelas já causaram pelo menos um problema sério de saúde durante a Copa. Aconteceu com um soprador super radical de vuvuzela, que teve uma hemorragia na garganta após tocar o instrumento durante horas. (É sério, saiu no jornal.) Não acho que foi bem feito, porque a gente não deve desejar o mal aos outros. Nem é da minha natureza fazer isso. Coitado, vai ficar vendo o resto da Copa do Mundo no hospital. Pelo menos lá ele vai poder ver como é bom assistir aos jogos em silêncio.

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