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A arte do futebol e a graça do gol

Luiz Zanin Oricchio

18 de janeiro de 2011 | 14h11

Ninguém pode dizer, em sã consciência, que a primeira rodada do Campeonato Paulista tenha sido uma festa para os olhos de um apreciador de futebol. Equipes ainda meio tortas, fora de forma, desfalcadas, desentrosadas – tudo isso de certa forma era esperado neste início de temporada. Em alguns casos, houve time que superou as expectativas e foi pior do que se imaginava. Não vamos desanimar.

Sim, porque, apesar disso tudo, não é que tivemos momentos muito interessantes? Por exemplo, o Santos, sem oito titulares, passeou no jogo contra o Linense e pelo menos um dos quatro gols que marcou foi muito bonito. Escapada de Zé Love pela esquerda e toquinho esperto na saída do goleiro, que foi mal no lance. Adílson Batista jogou com três atacantes, mostrando disposição de dar continuidade à filosofia de jogo ofensiva do Peixe.

Mas o momento mais surpreendente (e bonito) da rodada, claro, foi o gol olímpico de Roberto Carlos contra a Portuguesa. O lance teve aqueles ingredientes que agradam em cheio ao boleiro amante da arte do futebol. Foi misto de técnica refinada e pura malandragem. Enquanto o goleiro da Lusa se distraía orientando a defesa para a cobrança de escanteio, Roberto cobrou depressinha, com o lado de fora do pé, bola baixa, que fez a curva improvável e entrou na meta. Houve ainda a participação de um jogador do Corinthians, que voltava da linha de fundo e abriu as pernas para deixar a bola passar. Na opinião do comentarista de arbitragem da Globo Renato Marsiglia, esse fato torna o lance irregular. Mas não lhe tira o mérito, se não quisermos nos ater à fria letra da lei. E muito menos lhe tira a graça – no sentido amplo do termo.

O que é a graça? Aquilo que surpreende, que sai do esquadro, da “normalidade’’, da rotina do jogo. A graça tem algo de espiritual, é como uma iluminação, a exposição de uma possibilidade que não sabíamos existir. Tem algo de cômico também. Faz rir. Garrincha fazia a torcida rir, ao entortar seus “joões’’. Pelé fazia rir, ao se enganchar num adversário para simular uma falta dentro da área. A graça pode vir de um drible, de um passe inesperado, de uma malandragem genial. Pode ser um gol como o de Roberto, o primeiro gol olímpico em sua longa e vitoriosa carreira. Gol olímpico é sempre uma maravilha, desafia a linearidade do pensamento. Para o leigo, parece algo impossível. Pelas leis da física é pensável, mas é muito difícil. Quando ainda inclui um ingrediente de malícia, como foi o caso nesse gol do Corinthians, ele se torna ainda mais fascinante.

Enfim, esses momentos, para uma rodada de abertura, estão mais do que bons.

O que ainda não dá é para fazer prognósticos em relação aos grandes que, para ser franco, se bateram contra adversários muito fracos. Quer dizer: infelizmente já dá para falar alguma coisa do Palmeiras. Se Santos, São Paulo e Corinthians, com mais ou menos brilho, fizeram a lição de casa e já embolsaram três pontos, o Palmeiras empacou diante do Botafogo de Ribeirão Preto – e jogando em casa. Na estreia, o time de Felipão ganhou sua primeira vaia da torcida. Outras virão? Como as coisas não vão exatamente lá muito bem pelos lados do Parque Antártica, até o Palmeirinhas já foi desclassificado da Copa São Paulo.

Convenhamos: é preciso caprichar na ruindade para cair nas fases iniciais da Copinha. E os meninos do Palmeiras dançaram diante do velho Nacional, da rua Comendador Souza, sim senhor! Com eleição pela frente, o Palestra ainda tem muito tempo para se aprumar e fazer de 2011 um ano diferente de 2010. Mas é melhor não facilitar muito, não. Mesmo porque, com crise política ou sem, a turma do amendoim continua sempre atenta e vigilante.

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