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A malícia do Rei

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2006 | 12h18

Ouço, no programa do Milton Neves na Rádio Bandeirantes, a gravação de uma partida entre Santos e São Paulo em 1974. Nela, um lance famoso. O São Paulo ganha por 1 a 0 e o Santos não consegue empatar. Já no finzinho do jogo, a bola sobra na mão do goleiro Valdir Perez. Bola dominada. Pelé, dentro da área, arregala os olhos e parte para cima do goleiro, como se ele tivesse largado a bola. O zagueiro Samuel, assustado com a presença do Rei e de costas para o goleiro, agarra Pelé e comete a falta, marcada pelo juiz Armando Márquez. Pênalti que Brecha cobra e converte: 1 a 1, resultado final. O interessante é que Milton Neves reproduz as gravações da época e os jogadores do São Paulo elogiam a malícia de Pelé. Não o recriminam. Depois de repetir a gravação do jogo, Milton entrevista ao vivo o Valdir Perez de hoje, morando em Vitória, no Espírito Santo. Ele, que foi o goleiro da seleção de 1982, relembra o lance com humor e fala da capacidade inventiva única de Pelé, da sua inteligência capaz de tirar do nada um lance desses para decidir uma partida difícil. Novamente: nenhuma recriminação, só elogios à inteligência do adversário.

Eu me pergunto se hoje em dia, com a atual mania do politicamente correto, de falso moralismo que domina o país, um lance desses seria assimilado assim, numa boa. Ou o jogador que o cometesse não seria execrado como antiético, desleal ou coisa parecida? Não é só que o futebol já tenha sido bem melhor: já foi também mais divertido. E inteligente.

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