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Antipatia à primeira vista

miltonpazzi

22 de janeiro de 2010 | 17h27

Desde anteontem fiquei a imaginar como está a cabeça do Tcheco. Mal desembarcou no Corinthians, a chuteira por lassear, trata com cerimônia até o porteiro e o roupeiro no Parque São Jorge. Aí, pisa em campo duas vezes com a nova camisa e já sente o ouvido entupido de vaias. Parte da Fiel encrespou com ele e o elegeu, neste ensaio de temporada, patinho feio do elenco.

Vaia é lei de ouro no futebol, inevitável como xingar juiz. Não há técnico, dirigente, jogador – nem Pelé escapou! – que pelo menos uma vez não ouviu aquele som impiedoso derramado das arquibancadas. Faz parte, mas inibe, ainda mais se vem da própria torcida. Pior, mesmo, só se o crente é recém-chegado, como no caso do Anderson Simas Luciano, nome artístico Tcheco. Ele deve ter saído do Pacaembu, embaixo de toró de afogar tubarão, a perguntar-se por que atraiu antipatia do público em tão breve tempo.

O desempenho nos dois jogos não foi grande coisa. Contra o Monte Azul, na estreia, Tcheco jogou um pouco mais adiantado, com a missão de criar. Não mostrou nada de extraordinário, foi substituído por Edno e vieram os primeiros assovios pra assombrá-lo como alma penada. Na quarta, nos 2 a 1 em cima do Bragantino, ficou mais recuado, perto do Ralf. Esforço não faltou; futebol, sim. Deu lugar para Jucilei e quase tropeçou nos insultos ao ir para o vestiário.

Companheiros e Mano Menezes saíram em sua defesa. “Calma, gente”, é o que mais se escutou. O treinador pôs panos quentes, lembrou que é começo de ano, muita coisa pra ajustar etc. e tal. Por via das dúvidas, anunciou ontem que Tcheco descansa na rodada de fim de semana. É o rodízio, moda importada da Europa e que, pelo jeito, vai pegar – pelo menos para Corinthians e São Paulo.

Mano apelou para recurso manjado no futebol – nem por isso, inútil. Tira de cena jogador que corre o risco de queimar-se. Trata de desviar a atenção da torcida e recolocá-lo mais adiante. Tcheco não é um fora de série, nunca foi. Teve bons momentos, como qualquer boleiro mediano, e não pode ser considerado maestro da companhia. Os corintianos não devem esperar isso dele. Um pouco de paciência é saudável e justo.

Torcida pegar no pé de jogador é mais comum que alagamento em São Paulo. Mais raras são as manifestações de impaciência como cartão de boas-vindas. Lembro que a Fiel não deu sossego para Paulo Nunes, na brevíssima passagem pelo clube. Também pudera, era visto de esguelha desde os tempos de Palmeiras. Da mesma forma que os palestrinos da gema nunca esconderam má vontade com Viola, que não deixou saudades no Parque Antártica.

Douglas e Souza cansaram de ouvir vaias corintianas, assim como Kaká chegou a ser apupado por são-paulinos! E Lúcio? O que suportou de xingamento de palmeirenses não foi fácil… Aliás, lateral-esquerdo sofre com a camisa alviverde. Denys jamais foi perdoado por falha contra a Inter, na final do Paulista de 86, e Marcão foi execrado no ano passado. Se bem que, nesse caso, até que não houve tanto exagero. Marcão errou mais do que o Peninha Felix, o pior lateral em 125 anos de história do Liceu Coração de Jesus e que fez bem em largar a bola para ser oculista. Cuida dos olhos da gente como ninguém.

GALINHO DEPENADO
Tenho a impressão de que Zico fará parte da galeria dos craques que não brilham como treinador. Já há algum tempo está na estrada, perambulou por todo canto e são cada vez mais rápidas suas aventuras por clubes e seleções. Anteontem, foi dispensado de Olympiacos por meio de notificação judicial. Não precisava desse tipo de humilhação, ficou triste e disse que vai tirar ano sabático. Quem sabe, agora, pare de rodar mundo e se firme por aqui. Pode ser que a sorte se inverta.

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