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Árbitro, o judas nosso de cada dia

Antero Greco

24 de setembro de 2009 | 22h07

Juiz de futebol tem vida pior do que a do Judas. O personagem bíblico, renegado porque entregou Cristo a seus perseguidores, é lembrado uma vez por ano, na Semana Santa – mais especificamente no sábado de Aleluia. Em muitos lugares ainda se conserva a tradição de malhar um boneco que faça referência àquele que traiu o Salvador por 30 dinheiros, para ressaltar, sempre, que esse tipo de gente não merece complacência. Vi na Rua Lavapés, aqui em São Paulo, cada surra em judas! Em poucos minutos ficavam desmilinguidos. A próxima sessão só no próximo ano…

O judas do futebol é o árbitro. Sua excelência o apitador se expõe à execração pública ao entrar em campo. Devidamente saudado por robustos e clássicos palavrões. Xingar juiz é hábito que existe antes de a primeira bola rolar na história e já perdido na memória do tempo.

Também não passa uma rodada em que algum homem de preto (expressão fora de moda, pois hoje suas senhorias usam também uniformes coloridos) não se veja envolto em graves acusações. Tem jogo, então tem juiz que cometeu alguma “safadeza”, que “roubou” aqui ou acolá. Não há desculpa, porque os duelos mais importantes são cercados por câmeras que pegam até os maus pensamentos de jogadores, bandeirinhas e sobretudo dos árbitros. Dá-lhe slow motion, imagens congeladas, aproximadas, tira-teimas e especialistas a descerem o malho. Alguns que ontem cometeram as mesmas barbaridades, quando tinham o apito na boca e eram autoridade suprema no gramado, hoje não economizam verbos e adjetivos para apontar falhas da rapaziada.

Vá lá, os briosos árbitros deram toneladas de milho pra bode, por lambanças cometidas, seja por presunção, seja por distração, seja por conivência. Mas não sou dos que crucificam os juízes. Pra mim, são personagens imprescindíveis ao futebol, não porque representem a lei e a ordem, mas por catalisarem as nossas emoções.

Você talvez não se dê conta, mas o árbitro é essencial para justificar a tensão que descarrega nas arquibancadas ou no sofá de sua casa. Tanto quanto o zagueiro tosco, o goleiro frangueiro, o volante brucutu, o centroavante grosso, o treinador burro e o cartola picareta. Sem eles, o futebol seria melhor e mais limpo, sem dúvida, mas também monótono. Não nos sentiríamos satisfeitos só com os gols. Faça um exercício, imagine essa situação aparentemente ideal e veja como baterá saudade desses judas.

A bola da vez é Evandro Rogério Roman. O sujeito vem sendo malhado desde anteontem à noite, por erros cometidos no clássico entre Cruzeiro e Palmeiras. Saiu do estádio mais xingado pela torcida mineira do que o Kléber, atacante do time da casa e em desgraça por suas ligações esmeraldinas. Há quem finque pé e afirme, em tom irredutível, que não deu três pênaltis para os anfitriões. Cravo um – o de Jumar em Fabrício, quando havia empate de 1 a 1. Fico a cismar em outros dois lances, mas respeito opiniões contrárias, que só demonstram o quanto de controvérsia pode existir em algumas decisões “arbitrárias”.

A vitória palmeirense por 2 a 1, de virada, com um jogador a menos, ficou em segundo plano, mesmo com os méritos que apresentou. Sobraram os lances discutíveis, prova de que o futebol se sustenta com a controvérsia e seria vazio sem ele.

Mas, aqui entre nós: Roman, vai errar com convicção assim lá na Cochinchina!

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