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Como salvar o Brasileiro delivery?

Luiz Zanin Oricchio

30 de novembro de 2010 | 07h10

A disputa pelo sistema de pontos corridos é como a democracia: cheia de defeitos, mas não se conhece nada melhor. A comparação é minha, mas a ideia, convém ir logo confessando, pertence a sir Winston Churchill, ex-primeiro-ministro britânico, líder da resistência à Alemanha nazista e uma das grandes personalidades do século passado. Charutão eterno à boca, Churchill, quando ouvia falar das imperfeições do regime democrático, lascava logo a frase: “A democracia de fato é o pior dos regimes possíveis, com exceção de todos os outros conhecidos.” Falou, e o que disse vale até hoje.

E eu digo tudo isso, invocando até o velho leão inglês, porque, com essa história do entrega-entrega generalizado, aves de rapina já se juntam em revoada para tentar mudar, mais uma vez, a fórmula de disputa do Brasileiro. Campeonato que, nesta reta final, está tendo tanta entrega de um time para outro que passou a ser chamado nas esquinas de “Brasileirão Delivery”. Você pede pelo telefone e o time entrega os três pontos em domicílio.

Claro que cenas como a da torcida do Palmeiras domingo em Barueri em nada contribuem para a credibilidade de um campeonato. Foi constrangedor, e o goleiro Deola, um dos poucos a honrar a gloriosa camisa do Palestra, saiu de campo chocado. Pressionado a tomar gols, era vaiado ao praticar defesas difíceis e teve até de se esquivar de copinhos d”água jogados pela própria torcida, o que parece inconcebível. Enfim, o que se tem visto em alguns campos brasileiros é a antítese do espírito esportivo.

De maneira informal, tenho conversado com amigos torcedores, todos finos, gente de cultura e, em sua maioria, favoráveis ao entrega-entrega geral. Quando digo que isso pode comprometer a própria essência da disputa, riem de mim. Como não sou moralista, sei muito bem que a argamassa a dar liga ao futebol atende pelo nome de rivalidade. Somos todos, em crianças, ensinados a amar um time e detestar outros tantos. Isso passa de pai para filho. Num mundo perfeito, seria possível palmeirense cumprimentar corintiano pelo título obtido, ou torcedor do Grêmio se alegrar com a conquista do Internacional. Ficaríamos tristes quando um rival cai para a segunda divisão e apresentaríamos nossa solidariedade aos amigos. Dizem que o grande Ciro Monteiro, Flamengo doente, não conseguia curtir direito quando seu time ganhava um Fla-Flu, porque ficava com pena dos amigos tricolores. Homem bom como Ciro nunca houve outro. É a exceção que justifica a regra.

No mundo das coisas imperfeitas, temos de levar em consideração esse impulso sádico das torcidas. Alegramo-nos com a vitória do nosso time, mas a desgraça do rival também nos enche de felicidade. Se não contasse com o amplo respaldo das torcidas, nenhum time se atreveria a entregar ou facilitar um jogo. A torcida é equivalente no futebol à opinião pública no mundo da política. O clamor das ruas, e o das arquibancadas, é temido, mesmo pelos poderosos da hora.

O problema é, mais uma vez, da humana imperfeição, que não nos deixa fazer as coisas como se deve. A culpa é dela, da nossa frágil natureza, e não do sistema de pontos corridos. Entregar jogos e facilitar partidas para atingir rivais pode ocorrer com qualquer fórmula, por exemplo na fase de classificação para os mata-matas. Não é abandonando o mais justo dos sistemas de disputa que se conseguirá mais transparência. Seria como condenar a democracia por ela produzir aberrações ocasionais.

Já que ninguém tem fórmulas ideais, que tal testar essa que anda por aí, trazendo os clássicos regionais para as rodadas finais? Desse modo, a própria rivalidade entre clubes se incumbiria de minimizar maracutaias. Talvez não seja solução definitiva. Mas, como não está em nosso alcance dar um banho de ética no planeta, acho que merece ser tentada.

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