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Contos da Carochinha

Antero Greco

17 de setembro de 2009 | 21h10

Quando era garoto e me esfolava pelas ruas e várzeas do Bom Retiro, acreditava em todo tipo de narrativa fantástica e não punha em dúvida a existência de nenhum mito popular. Imaginava que vagavam por aí Saci Pererê, Mula-sem-cabeça, Boitatá, alma penada. Morria de medo de ser espetado pelo diabo, de topar com bruxas ou de ser raptado pelo Homem do Saco. Até certa idade, esperava pelas generosas visitas do coelhinho da Páscoa e do Papai Noel. E me intrigava com o trabalho das cegonhas. Onde as danadas iam buscar os bebês?

Com o tempo, me libertei de alguns personagens traumatizantes na infância de qualquer criança saudável e também lamentei que outros, como as fadas e os duendes, não passassem de ilusão. Para compensar os anos de bem-aventurada credulidade, já adulto me tornei cético em relação a muita coisa na vida. Piorou depois de abraçar o jornalismo como profissão e projeto de vida. Vi tanta conversa fiada em mais de três décadas de carreira, que hoje em dia pouca coisa me convence.

Por isso, torci o nariz já na primeira vez em que ouvi ilustres cartolas e digníssimos governantes afirmarem que a Copa de 2014, no Brasil, seria feita quase exclusivamente com recursos da iniciativa privada. Não haverá dinheiro público envolvido nas obras, afirmavam os donos da bola e do poder. Desdém para os incrédulos, sorrisos cúmplices para ufanistas e os arrivistas de sempre.

Não passa nem um ano que o Brasil é confirmado como anfitrião do Mundial e se confirma que haverá enxurrada de dinheiro nosso para as cidades que quiserem construir ou reformar seus estádios. O Banco Nacional de Desenvolvimento Social, como publicou o Estado de ontem, se propõe a oferecer R$ 400 milhões, com juros baratinhos, para que surjam ou se modernizem os campos que receberão a festa do futebol. Os cofres estarão abertos até para arenas privadas, como o Morumbi, o clube cuja diretoria costuma definir como “diferente”, altivo, próspero, ousado, que foge ao lugar-comum.

A notícia só não me surpreendeu de vez porque desconfiava dela desde o lançamento da candidatura única (!) do Brasil e porque, no mês passado, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, havia acenado com essa possibilidade, em entrevista também aqui publicada. O governo se apressou em dizer que não haveria dinheiro de esfera federal. Ah, bom, a grana estadual, municipal ou do BNDES é diferente. É do governo, mas não é bem do goveeeerno. É do povo, mas não é bem do poooooovo. Você entende? Não?! Nem eu.

Informações de bastidores dão conta que autoridades estão preocupadas com atrasos em projetos ou mesmo com o risco de serem cortadas algumas sedes. Para evitar vexame, e para não prejudicar nossa imagem, preferem intervir desde já. Uma indiscrição aqui, outra confidência acolá, e não faltam referências ao Pan do Rio e seu traumático cronograma.

Amigo Boleiro, prepare o espírito (e talvez o bolso), porque até 2014 muita grana vai rolar, com a leve desconfiança de que sabemos quem vai pagar a conta. Conta que pode crescer mais do que capim no mato, se o Brasil for escolhido como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. E dá-lhe conversa pra boi dormir, na justificativa de gastos e investimentos. O que parece ideal, no papel, muda de figura na prática. E, cá entre nós, lorota por lorota preferia os contos da Carochinha. Pelo menos, neles os vilões perdiam no final.

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