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Jogo sujo na palma da mão

Antero Greco

27 de março de 2009 | 10h43

O Toninho Cazzeguai era um cara bacana. Não jogava grande coisa – pra ser sincero maltratava a bola, grosso de doer. Mas dava o sangue nos clássicos antológicos que disputávamos no terreno baldio que havia na esquina da Solon com General Flores, no Bom Retiro dos anos 60. E que lealdade! Não dava pontapés, não agarrava pela camisa, não inventava situações em seu favor. Pra ele, contava o prazer de brincar de futebol. Sem se dar conta, já praticava o jogo limpo bem antes de a Fifa se bater pelo fair play nos gramados.

Mas o Toninho virava bicho quando alguém queria bancar o esperto pra cima do time dele. Sabe aquela de brigar pelo lateral, pelo tiro de meta, pelo pênalti só na malandragem? (“É nossa! Não, é nossa! Saiu! Não saiu! Foi falta! Não foi!”). Com ele era na base do pão-pão, queijo-queijo. Sem roubalheira. Se o lance prejudicasse sua equipe, mas era o justo, nada a contestar. “É do jogo”, dizia. Modelo de retidão, apanhou muito dos aventureiros com que topou pela vida, mas nunca se afastou de princípios tão simples e cordatos.

O Toninho só não gostava de ser feito de bobo. E, por acaso, alguém gosta? Lembrei desse querido amigo ao ver o gol de mão marcado pelo Fabrício Carvalho no jogo com o Mirassol. O lance decretou o empate de 2 a 2 que salvou a Lusa de vexame anteontem no Canindé. O atacante que um dia quase foi condenado para o futebol por problemas de coração deu uma “largadinha” de vôlei, dentro da área, e enganou o trio de arbitragem. Ao ver a bola no gol, mandou uma espiadinha marota para os lados, para ver se a encenação emplacou, e correu para o abraço de seus companheiros.

A torcida festejou e a vida seguiu. Certo? Certo uma vírgula! Do lado de cá, me coloquei no lugar dos jogadores do Mirassol, que se esgoelavam na tentativa de convencer o juiz Milton Ballerini de que eram vítimas de fraude. Sua senhoria, perto do lance, não recuou um milímetro de sua decisão. Lá longe, Fabrício Carvalho & Cia fingiam que o assunto não era com eles. Aguardavam a nova saída e sonhavam com a virada. Imagino a revolta que bateu em quem tinha a vitória perto e a viu escapar por uma jogada desonesta, em que não contou a criatividade, muito menos a habilidade, mas apenas a falcatrua. Como fica o esforço deles?

Alguém pode argumentar que isso também faz parte do futebol, que gol de mão aconteceu até em Copa do Mundo. E vem à tona o exemplo de Diego Maradona, em 86, contra a Inglaterra. O famoso gol marcado pela “Mano de Dios”. Pois eu digo que não faz parte do jogo e muito menos há qualquer indício de inspiração divina nesse tipo de situação. Sopro divino tem no drible, no chapéu, no deslocamento imprevisto, no toque sutil na bola. Na ginga que deixa o adversário no chão, com o queixo caído. Não precisa prender o Fabrício, mas não pode passar batido o lance (e ele fez a mesma coisa quando jogava em Goiás).

Fico triste quando ouço um jogador falar que importa sempre a vitória, “mesmo por meio a zero e com gol de mão”. Com o argumento adicional de que a história não leva em conta esses detalhes de momento e só eterniza o resultado. Maneira tosca e rasteira de referendar a falsidade. Daí a achar normais a presença do cartola corrupto e a lengalenga do político que “rouba mas faz” é só um passo. É conformismo e desejo de entrar no esquema. É egoísmo e burrice. E já estou cheio de ser tungado, na vida e no esporte.

* Esta coluna é publicada todas as sextas-feiras no jornal ‘O Estado de S. Paulo’, na seção ‘Boleiros’