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Não é por acaso

Eliana Silva de Souza

03 de dezembro de 2006 | 15h34

A história das vitórias do vôlei brasileiro, em especial da seleção masculina, está na contramão de muitas outras contadas no esporte nacional, como as de Guga ou da ginástica, quando o talento brotou do nada, geração praticamente espontânea, e depois, em torno desse talento, criou-se uma estrutura para explorar o esporte (ou não criou-se nada, como no tênis). São talentos que só brotaram e deram fruto por causa do brilhante trabalho da Confederação Brasileira de Voleibol, que aproveita muito bem a verba que lhe é concedida pelo Banco do Brasil e pelas leis de incentivo ao esporte para montar uma estrutura que dá condição para esses jogadores estourem.

Bernardinho sempre faz questão de dizer que não trabalha sozinho. E não trabalha mesmo, ele tem pelo menos uma dezena de profissionais de primeiro nível, que o abastecem de estatísticas, o ajudam nos treinamentos, mantêm os jogadores em excelente forma física, técnica e médica. Um trabalho em equipe que se estende para a quadra, com craques que se preocupam mais com o conjunto do que com prêmios individuais e estatísticas pessoais.

Trabalho que se estende às categorias de base. Basta lembrar que a seleção de novos, da qual apenas Samuel foi para o Mundial, atropelou a Argentina, 13.ª colocada do Mundial, em dois amistosos antes da competição – o que dá a imaginar que, no Japão, os novatos poderiam tentar brigar por uma vaga nas semifinais. Depois de Pequim, quando boa parte do atual time se aposentar, jogadores como Vinhedo, Bruno (filho de Bernardinho), João Paulo, Roberto Minuzzi, Evandro e Sidão já estarão prontos para substituí-los e manter o time jogando em alto nível e brigando por títulos.

É claro que nem tudo são flores. Os clubes reclamam que os jogadores passam mais tempo na seleção do que com eles, e também há uma oposição na CBV que considera “ditatorial” a condução do presidente Ary da Graça Filho. Os problemas para arrumar e manter patrocinadores são os mesmos vividos por outros esportes. E os clubes não conseguem manter os craques no País, assim como no futebol – dos 12 bicampeões mundiais, só Samuel joga – ainda – no Brasil. Parece também haver uma divisão “partidária” entre Bernardinho e José Roberto Guimarães, técnico da seleção feminina, da qual é claro sintoma a dedicatória do técnico para sua mulher, Fernanda Venturini, logo após o fim do jogo.

Mas os resultados deste ano mostram que o trabalho é bem feito, merece crédito e é um exemplo para os demais esportes de como usar bem recursos para preparar uma estrutura e obter vitórias. Não é algo de curto prazo, claro, é um caminho que o vôlei trilha desde 1980. E, com um título e um vice mundial, os títulos da Liga Mundial masculina e do Grand Prix feminino, e mais as sucessivas vitórias na praia, acredito que já se possa dizer que o Brasil é o “país do vôlei”.

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