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Não mexe com quem está quieto

Antero Greco

20 de agosto de 2009 | 22h29

Sabe quem o São Paulo me lembra? O “Patrick”, personagem do Rodrigo Fagundes no Zorra Total, que passa aos sábados depois da novela e durante a pizza. Só pra refrescar a memória: é aquele sujeito tímido, certinho, com penteado esquisito, todo sem graça e que, por isso, aguenta gozação de uns fortões. Até que se enche, roda a baiana e bota todo mundo pra correr. “Não mexe com quem tá quieto!” é o bordão dele. O cordeiro vira fera, faz estrago e se impõe.

A cada rodada que passa vejo mais o São Paulo nessa situação. No começo do campeonato, andava macambúzio, sorumbático, cabisbaixo, não encaixava uma e patinou no porão da tabela. Descambou tanto que sobrou para Muricy Ramalho, um dos responsáveis pelo tricampeonato brasileiro. Tomou bilhete azul e em seu lugar veio Ricardo Gomes, cercado de desconfiança. Muita gente, e me incluo nesse grupo, considerava o querido Tricolor carta fora do baralho. O tetracampeonato? Nem em sonho! Quando muito, imaginei que poderia flanar pela zona intermediária e pegar uma Sul-Americana em 2010.

Mas não é que o time “difereeeentche”, como gosta de sibilar seu performático presidente, desandou a vencer? Derrubou sete adversários na sequência e grudou em Palmeiras, Goiás, Inter, Atlético-MG. Deixou de ser coadjuvante e neste momento desponta como forte candidato ao título. Ou, na pior das hipóteses, a arrancada já calou a boca de quem considerava finada sua fase hegemônica.

Não se trata de obra do acaso ou dos deuses do futebol, esse lugar-comum ao qual se apela sempre que ocorre algo incomum no mundo da bola. Fora de esquadro era a etapa anterior, aquela das derrotas, dos resultados insatisfatórios no Paulista e na Taça Libertadores. Esgotava-se de fato um período que teve Muricy como um dos símbolos. O São Paulo não podia ter virado o fio, não era tão pior do que outros postulantes à taça. Só que as danadas das vitórias minguavam no Morumbi.

Não há segredo na reação. Primeiro, porque não existe time consistente no Brasileiro a ponto de sustentar larga vantagem por longo tempo. Atlético, Inter e Palmeiras estão aí para não me desmentir. Os três chegaram a olhar com desdém para seus perseguidores e se viram engolidos em um turno apenas. Havia, portanto, espaço para o crescimento dos demais. Avaí e São Paulo servem para referendar a tese. E o Corinthians começa a ficar buliçoso…

No caso do São Paulo, conta muito uma espécie de pacificação que se deu no elenco. Havia mais vaidade e prima-donas do que em Hollywood. A bola andava murchinha, mas o salto, em compensação, era alto. Ricardo Gomes, estilo low profile, de lorde cheio de explicações, conversou aqui, apaziguou ali, não reinventou a roda e recolocou o time para jogar bola. Recuperou a autoestima de Hernanes, mostrou que havia espaço para Dagoberto, Washington, Hugo, Borges, ajustou a defesa e esperou para ver que bicho ia dar.

Sem mistério, o futebol voltou. O São Paulo não tem feito exibições antológicas, em alguns momentos sofre como equipe normal que é, mais limitada do que em anos anteriores. Mas resgatou a confiança dos vencedores e faz com que sua torcida cante, toda prosa, o refrão “o campeão voltou”.

Já o Palmeiras entrou em curto circuito e está chamuscado. E, em vez de ficar na moita, vem o presidente Belluzzo dizer que não tem medo do Jason. Ai, ai, ai, professor, não mexa com quem está quieto.!

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