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O ciclo da pobreza

Eliana Silva de Souza

21 de dezembro de 2006 | 17h07

O Real Madrid pagou US$ 8 milhões para tirar do Fluminense o lateral-esquerdo Marcelo, de 18 anos. Ele chegou com status de “futuro Roberto Carlos”, e a diretoria do tricolor carioca deve ter achado que fez um negócio da China. Pois o mesmo Real pagou US$ 17 milhões para contratar o franco-argentino Higuaín, do River Plate, e nesta quinta fechou pela bagatela de US$ 27 milhões a contratação do volante Gago, do Boca Juniors, apontado como o “futuro Redondo”. Pagará a fatura em três parcelas anuais de US$ 9 milhões, ou seja, um Gago é igual a mais que três Marcelos.

Não cabe aqui discutir a diferença técnica entre Gago, Higuaín e Marcelo, até porque os três até agora ainda não ultrapassaram a condição de promessa – e a diretoria do Real sabe disso, tanto que o técnico Fabio Capello já admitiu que são três apostas que o clube está fazendo. Apostas caras, mas ainda assim apostas.

O que fica é a impressão de que, se fizesse um pouco mais de jogo duro, a diretoria do Fluminense poderia aumentar o faturamento conseguido com o jogador. O problema é que a penúria dos clubes brasileiros é tamanha, e a sede dos empresários de igual tamanho, que os clubes não resistem ao primeiro maço de dólares (ou euros) que é balançado com origem no Velho Mundo.

É uma pena, porque nosso futebol fica cada vez mais pobre de talentos. Isso o torna menos atrativo, por exemplo, para que a transmissão pela TV seja vendida mundo afora – o que seria uma saída para aumentar a renda dos clubes. Cai também o interesse dos patrocinadores, a freqüência do público nos estádios, a venda de camisas e de produtos com a logomarca dos clubes. Assim, há menos dinheiro para pagar os salários e segurar os craques – que acabam indo cada vez mais cedo, e mais facilmente, para o exterior.

Uma bola de neve gigante e incontrolável, de fato. Mas na Argentina a situação tampouco é muito mais animadora – e o Boca ignorou solenemente a primeira proposta do Real por Gago, de cerca de US$ 22 milhões. Não porque não precisa do dinheiro, mas porque sabe do valor que seu produto pode alcançar. Coisa que o Fluminense não soube fazer com Marcelo. Por quanto o Flu venderá sua próxima revelação?

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