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O Corinthians e a ética de resultados

Luiz Zanin Oricchio

12 de outubro de 2010 | 18h34

Muitos coritinianos suspiraram quando Mano Menezes deixou o comando do Corinthians para dirigir a seleção brasileira. Tinham razão para lamentar. Ao longo do seu longo período de trabalho, Mano dera estabilidade ao time, uma confiança que apenas a continuidade pode garantir. A gente sabe como é. No nosso tempo as relações tendem a durar pouco – de empregos a casamentos, e ainda mais a união sempre frágil entre treinadores e clubes de futebol. Mas Mano parecia acima do bem e do mal. Não conheci corintiano que tivesse uma única má palavra a dizer sobre quem havia reconduzido o time à Primeira Divisão e lhe dera padrão de jogo reconhecível e sólido.

Quando ele se foi, ao lado da apreensão, criou-se uma expectativa, digamos, interessante, em torno do substituto Adilson Batista, que fizera belo trabalho no Cruzeiro, mas também tinha (e tem) a fama de Professor Pardal, quer dizer, de alguém chegado a invenções. Em seu começo de trabalho, Adilson logo mostrou personalidade. Apesar de substituir uma unanimidade, empenhou-se em colocar sua marca pessoal num time que vinha sendo considerado favorito ao título. Depois de algum tempo, o novo Corinthians já parecia a alguns analistas (e, entre eles, me incluo) até melhor do que o anterior. Mais leve, livre e ofensivo, mais agradável de se ver jogar.

No entanto, nas últimas duas semanas, Adilson vinha sofrendo no quesito fundamental do futebol, aqueles que põe em segundo plano todos os outros, e ofusca qualquer tipo de consideração ética ou estética: o resultado. O leitor é livre para dizer que, desde que a bola começo a rolar, lá nos tempos das cavernas (para onde às vezes acho que estamos voltando), sempre foi assim. O resultado é o que conta, talvez ainda mais hoje do que sempre. E o Corinthians vinha tropeçando, e pondo em risco a única conquista disponível para o ano do centenário. Tudo o que vem sendo falado hoje, das trombadas com atletas ao desgaste político de Adilson, não surtiria o meno efeito caso o time viesse atropelando nessa reta final. Não é o caso, por uma série de motivos e, dessa forma, mais uma vez sobrou para o treinador.

Claro que não sabemos até agora o que aconteceu, e os envolvidos sempre fazem questão de nos deixar na dúvida. A gota d’água foi a derrota para o fraco Atlético Goianiense, em pleno Pacaembu. Ela apenas foi o sinal mais visível de um time que vinha perdendo consistência nas últimas rodadas – justamente naquelas em que um candidato ao título de tem de embalar definitivamente. Os problemas reais são muitos: contusões, o impasse insolúvel de Ronaldo, a convocação de Elias em hora errada, o desgaste físico pelo excesso de jogos etc. O Corinthians enfraqueceu por tudo isso e não, acredito, por Adilson ter inventado demais e tirado coelhos da cartola quando deveria permanecer no arroz com feijão. Houve uma espécie de cansaço do material, prematuro, e a diretoria entendeu que tinha de fazer essa demissão emergencial, sob pena de terminar o ano sem sequer uma conquista para comemorar. Contam, talvez,com aquilo que de vez em quando acontece na chegada de um novo técnico. Aquele choque no elenco, capaz de despertá-lo para estas últimas e decisivas rodadas.

Vai dar certo? Como saber? O que se pode dizer é que a atual diretoria do Corinthians será julgada por seus próprios padrões – a da ética de resultados. Se o elenco reagir, já agora contra o Vasco, e retomar a disputa pelo título, tudo bem: a decisão de afastar Adilson terá sido acerta. Caso contrário, a gestão Sanchez ficará marcada pela atitude precipitada e talvez imprudente na reta final de um campeonato difícil.

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