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O futebol e suas lições de ética

Luiz Zanin Oricchio

23 de novembro de 2010 | 12h38

Um dos encantos do futebol é servir como laboratório para questões que enfrentamos em nossa vida comum. Por exemplo, esse final de Campeonato Brasileiro vem sendo rico em dilemas éticos. O maior deles, o chamado “entrega ou não entrega”. Times podem entregar partidas em cujo resultado já não têm maior interesse apenas para prejudicar seus adversários?

O caso mais notório, o dos últimos dias: o São Paulo facilitou o jogo para o Fluminense de modo a prejudicar o rival Corinthians? O resultado de 4 a 1 para o Flu só fez aumentar a discussão. O São Paulo teria feito algum esforço para evitar a derrota, ou deixou-se vencer, sem maiores problemas? Como saber, uma vez que toda a decisão ética é de foro íntimo? Como adivinhar o que vai pela cabeça dos jogadores?

Alguns casos mais ou menos recentes são interessantes para lembrar. No ano passado, o mesmo São Paulo, que hoje é acusado de amolecer para o Fluminense, acusou o Corinthians de não ter feito o menor esforço para ganhar do Flamengo, que atropelou na reta final e conquistou o título do Campeonato Brasileiro.

Há poucos dias, pela Copa do Nordeste, o Vitória e o Treze da Paraíba jogaram uma partida estranha em que ninguém parecia disposto a vencer. O empate desclassificava o Bahia. Os exemplos estão em toda a parte. Também há pouco, a gloriosa seleção brasileira de vôlei perdeu um jogo, resultado que lhe abria caminha em tese mais fácil rumo ao título. Já houve coisa assim em Copa do Mundo, com o empate entre as duas Alemanhas (na época o país era dividido), resultado que classificava ambas.

Claro que existem aí sutilezas que merecem ser levadas em conta. Não se trata, nesses casos, de corrupção pura e simples. Quanto a essa não resta dúvida: é condenada por todas as pessoas de boa fé. Não estamos diante de casos em que um indivíduo ou uma equipe se vendem por dinheiro. Apenas diante de algo mais impalpável que a vantagem material: uma equipe ou um indivíduo simplesmente deixa de dar o melhor de si em determinada circunstância. Essa circunstância torna tudo mais difícil. Como provar que o São Paulo, se quisesse, poderia ter batido o Fluminense em Barueri? Falando de futuro: como garantir que o Palmeiras suará a camisa para vencer o Fluminense e dar o título ao Corinthians na próxima rodada? E isso, sabemos, com o Palmeiras já não desejando ou temendo nada do Brasileiro e concentrando todas as suas energias na fase final da Copa Sul-Americana.

Tudo isso é motivo de debate. Mas não para parte da torcida, que já deu sua resposta nas redes sociais e também no campo, com são-paulinos portando bandeiras do Fluminense e comemorando gols do adversário. Devemos condená-los? Ou o sabor da vingança sobre um terceiro, o Corinthians, justifica a contradição de alegrar-se com os gols levados por seu próprio time? Cabe a cada um decidir sobre tema tão ingrato, já que não existe consenso social sobre a ética.

Por isso, em toda essa polêmica, lembro-me de um caso já um tanto distante, quando o São Paulo, caso se deixasse vencer pelo Juventus, condenaria o Corinthians ao rebaixamento à 2ª divisão do Campeonato Paulista. A torcida tricolor era favorável à entrega do jogo. Mas não contava com a integridade pétrea do atacante Grafite, que fez dois gols e salvou o rival Corinthians da degola. O que ele ganhou com isso? Nada, em termos palpáveis. Talvez até tenha perdido. Apenas ficou em paz com a sua consciência – o que é um bem imenso. Imaterial, mas incomensurável. Passa por aí a questão ética: em determinadas situações devemos fazer certas coisas, sejam quais forem as consequências dos nossos atos. E ponto final.

Para a pessoa verdadeiramente ética, é impossível não sê-lo.

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