O jogador é o espetáculo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O jogador é o espetáculo

Antero Greco

27 de agosto de 2009 | 23h37

muricy420

Na semana do importante clássico que São Paulo e Palmeiras têm programado para o Morumbi, um dos nomes mais citados é o de Muricy Ramalho. Inevitável colocá-lo em destaque porque será o reencontro com o clube com o qual venceu os três últimos Brasileiros. Há a mágoa pela dispensa, depois da queda na Libertadores, há a contrapartida do carinho da torcida tricolor pelo treinador e há o fato de hoje comandar o maior entrave no caminho do tetra.

Esses elementos condimentam o clássico. Muricy é personagem de relevo, e merecidamente, mas não o mais importante. Se o considerarmos acima dos astros, como atração do jogo, caímos de novo em pecado recorrente no futebol. Já de algum tempo temos a tendência a supervalorizar o trabalho dos técnicos, elevados à condição de comandantes, professores, managers ou sei lá mais o quê. Em muitos casos, recebem salários astronômicos, superiores à soma do estipêndio de vários atletas titulares. Um exagero.

Treinadores têm função primordial, porém os protagonistas sempre serão os jogadores. Por seus dribles, por suas pisadas de bola emocionam e levam a gente aos estádios. Jamais na vida vi alguém que tenha se abalado a sair de casa para chegar ao campo e olhar para… o duelo no banco de reservas.

Que Muricy seja reverenciado por seus antigos seguidores, que distribua abraços entre os ex-pupilos, que faça sua cara de bravo durante o jogo e fim de conversa. Na hora em que a bola deslizar pelo gramado, mandam Diego Souza, Marcos, Obina, Hernanes, Rogério Ceni, Washington. Os artistas são eles. E tá com cara de empate.

ARQUIBANCADA FELIZ
O Palmeiras completou 95 anos, anteontem, como um velhinho sacudido e atrevido – emplaca os 100 com saúde. Por um desses atalhos da mente, lembrei de um jogo ao qual meu pai e os tios Tommaso e Giuseppe me levaram, no Pacaembu, na tentativa de conquistar-me para o Palestra. Queriam a todo custo que seguisse o clube de coração que os fazia sentir-se próximos à Itália deixada para trás. Era novembro de 1967, clássico com o Corinthians, vitória por 2 a 0, gols de Tupãzinho, o antigo.

O trio de queridos carcamanos festejava à vontade cada um dos gols que afundaram a carreira do goleiro Barbosinha. No pouco espaço que havia sob a finada Concha Acústica, depois substituída pelo Tobogã, me encolhia de medo, por achar que os corintianos, maioria, poderiam arrumar confusão.

Não aconteceu nada de anormal – misturados, torcedores cuidavam de incentivar seus times ou praguejar contra o juiz. Fomos embora no Chevrolet 54, a multidão pacata espalhando-se pelas avenidas Pacaembu e Dr. Arnaldo e eu encantado com o prazer de ir ao estádio.

Aquele clima aconchegante foi decisivo para que voltasse centenas de vezes ao campo, independentemente de quem estivesse jogando. Em minha vida, sempre prevaleceu o prazer de ver o espetáculo ao vivo.

A referência ao episódio perdido no tempo é homenagem à glória do Palestra e um nostálgico piscar d’olhos para um passado em que a convivência pacífica entre torcidas rivais não feria suscetibilidade. Com a agravante de que se tratava de dois arqui-inimigos. No Choque Rei, como era conhecido o duelo São Paulo/Palmeiras, havia ainda menos registros de incidentes.

Não imagino quadro semelhante depois de domingo, no Morumbi. Há “guerreiros” demais que agora frequentam os campos e torcedores de menos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.