O passado, passado está
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O passado, passado está

Antero Greco

07 de janeiro de 2010 | 21h45

roeto

A apresentação do Roberto Carlos foi o que mais me chamou a atenção neste começo de ano esportivo debaixo de tempestades e trovoadas. A festa na Fazendinha foi bacana, ocupou algumas horas de quem curte o ócio das férias em São Paulo, funcionou como homenagem à carreira de um jogador vitorioso e afagou o ego da cartolagem do Corinthians. O mico foi a entrevista coletiva em público, ao ar livre, no campo e sob o calor desgramado do meio-dia. Fiquei com pena de repórteres e do lateral recém-chegado, com a carequinha a brilhar de suor.

Mas não é que Roberto Carlos se livrou da saia-justa? Quando lhe perguntaram se a antiga ligação com o Palmeiras não poderia causar mal-estar com a nova torcida, o campeão do mundo se saiu com essa: “O passado, passado está.” Matou o assunto, foi aplaudido pela Fiel e marcou seu primeiro ponto. Ficou bonito na fita.

Há quem tenha essa postura na vida, de não olhar para trás e de não supervalorizar histórias anteriores. Limita-se ao hoje, ao carpe diem (“curta o dia”, em tradução livre) que pregavam antigos romanos. No futebol, essa atitude parece ser cada vez mais conveniente e necessária. Os jogadores são lépidos em trocar de camisa, muitos se consideram velhos de casa se conseguem ficar duas temporadas num time.

Então, nada mais adequado do que apelar para o que “já passou, passou”.
Nada contra. Só me irrito de algum fariseu ter a cara de pau de beijar o escudo da camisa. É demais!

A passagem do Roberto Carlos pelo Palmeiras nem foi tão longa – duas temporadas e 68 jogos (3 a menos do que disputou no Fenerbahce). Mas marcou, porque coincidiu com o fim do jejum de títulos. Vivia-se o começo da Era Parmalat e ele foi titular nas conquistas do bicampeonato paulista e brasileiro, em 93 e 94. Depois, bateu asas, ficou um ano na Inter de Milão e 11 no Real Madrid. Por isso, notei que houve tentativa frustrada de arrancar declaração polêmica do Roberto na referência que se fez ao passado palestrino.

Há muito abandonei a ilusão juvenil de ver craques (ou nem tanto) eternamente associados a uma equipe. Já engavetei aquele sentimento de mágoa ao ver um jogador debandar, seja em que ponto for da carreira, para o rival. Não o considero mais traidor. Veja, por exemplo, o caso de Palmeiras e Corinthians. Sem ir a fundo e só de apelar para a memória mais ou menos recente, lembro de vários casos: Edilson, Rincón, Luizão estiveram antes no Parque Antártica, mas se tornaram ídolos no Parque São Jorge, assim como Neto. Já Rivaldo teve trajetória inversa.

Com os tempos que correm, não há mais interesse nem paciência de ver um sujeito a carreira toda com a mesma camisa. Clubes e profissionais precisam de circulação, para movimentar grana, publicidade, vender camisas. É da vida, eu sei. Mas, mesmo de ponto de vista mercadológico – o esporte não é business? -, ainda acho importante que pelo menos esporadicamente o time trabalhe para ter um “fiel”, que possa servir como ponto de referência, como chamariz. E lá vamos com as citações de sempre: Marcos, no Palmeiras, e Rogério Ceni, no São Paulo, são responsáveis por atrair milhares de garotos para suas agremiações. Vale a pena pensar nisso.

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