O risco de perder um campeonato
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O risco de perder um campeonato

Antero Greco

22 de outubro de 2009 | 21h54

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O Palmeiras emperrou. Faz tempo que não via um favorito a título empacar como ocorre agora com o time de Muricy Ramalho. Não que estivesse a jogar o fino da bola – longe disso. O elenco de hoje não faz sequer cócegas à memória de esquadrões como os dos anos 60, começo dos 70 ou do primórdio da era Parmalat, na década de 90. Mas até 20 dias atrás o ainda líder do campeonato se livrava dos rivais com consistência, aplicação e um ou outro momento de maior brilho. Agora, travou. Nas últimas quatro rodadas derrapou, saiu do prumo, perdeu o encanto. Recita script que faz vislumbrar final patético e que, desde já, desencadeia uma série de gozações.

A torcida fica a perguntar-se porque a equipe espanou, onde a porca torceu o rabo. Não creio em explicação simplista, muito menos em teorias da conspiração, daquelas que apontam rachas no elenco, má vontade com o treinador, igrejinhas, insatisfação com a diretoria. O saltinho também cresceu…

Pode haver um pouco de cada coisa, porque ambiente de trabalho e um grupo nunca são totalmente harmoniosos. Conflitos existem, onde quer que haja relações humanas. No futebol, como em muitas profissões de destaque, vaidades ficam mais aguçadas. O fato é que o Palestra parou de jogar. Estancou, imobizou-se, abestalhou-se.

Um dos pontos de sustentação do time era a eficiência na marcação, a regularidade do sistema defensivo. Havia consenso de que a confiabilidade do setor se devia à presença de Pierre, volante dedicado e talentoso. Nome certo em convocações, se jogasse no exterior. Podia ser um clube da Ucrânia ou da Série B da Alemanha, teria seu valor reconhecido. Pois Pierre, esnobado pela seleção, sofreu grave contusão e sua saída tornou frágil o meio-campo. Souza ficou sobrecarregado, Edmilson não tem mais pique para correr pra cá e pra lá (Petkovic deu-lhe um baile no domingo) e Jumar é limitado.

A zaga foi o segundo setor a sentir o efeito dominó. A ausência de Maurício Ramos desorientou seus companheiros. Ele se machucou no jogo com o Atlético Paranaense, no fim de setembro, e depois o time se desarrumou. Ainda veio a vitória sobre o Santos (3 a 1, na Vila), e a sequência de resultados constrangedores. Muricy não tem substituto à altura do titular

A etapa seguinte foi a queda dos setores de criação e conclusão, mais conhecidos como armação e ataque. Diego Souza teve chances – merecidas, aliás – na seleção. No entanto, parece que a altitude de La Paz lhe fez mal. Ele ainda não caiu das nuvens. Nas duas últimas derrotas (para Flamengo e Santo André), teve atuação abaixo da média. Cleiton Xavier, o garçom do time, desabou antes disso, até aumentar a lista de contundidos, anteontem, no ABC. Por extensão, sumiram Vagner Love, Obina, Robert e Ortigoza.

Muricy deu sua contribuição para a espanada ao variar pouco o esquema. A base do sucesso de suas equipes consiste na continuidade, na repetição, na persistência. Quando o figurino está impecável. Na turbulência, porém, não tem mostrado ousadia e segue a toada de sempre. Falta no mínimo chacoalhão, um daqueles “escuta aqui, meu filho” com que se dirige aos repórteres para mostrar-lhes que é mais experiente – e que, portanto, tem autoridade.
O quadro não é animador. Significa que o Palmeiras perdeu o título? Não sou besta de afirmar isso, pois ainda depende de si para arrebatar a taça. Só que tem de acordar – e dá tempo. O time precisa também ter a fé do Nilson Pasquinelli, diagramador do Estado mais otimista do que o Cândido de Voltaire. Pra quem o atormentavam ontem, na redação, respondia: “Vou lembrar de todos na hora da festa do Verdão”. Pode ser, Nilsão, mas tá escorregando.

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