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Pela vida eterna, amei

Antero Greco

18 de abril de 2009 | 04h42

Sei que muitos dos que leem esta coluna fazem parte da geração do msn, do twitter, do YouTube, dos blogs, dos games, do pay-per-view e de tantas maravilhas virtuais reconhecíveis em inglês. Sei também que muitos se proclamam torcedores de Manchester, Milan, Barcelona, Real Madrid e outros gigantes europeus – e até desfilam com camisetas desses clubes como se fossem tupiniquins. Tudo bonito, moderno e inevitável, mas não são minha praia.

Minha paixão pelo futebol surgiu com Thomas Mazzoni no jornal, Fiori Gigliotti no rádio e Raul Tabajara na tevê a descreverem as proezas de Santos, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa nos gramados. Façanhas respaldadas por combates inesquecíveis contra rivais como Ferroviária, Lusinha Santista, Comercial, Juventus. Esses pequenos eram terríveis e, não por acaso, tinham apelidos como Moleque Travesso, Briosa, Ferrinha…

Desde criança me sinto ligado a esses coadjuvantes domésticos – não me liberto da influência deles, nem quero, por emocionante que seja ver jogos como Chelsea 4 x Liverpool 4. Mas não dá pra negar a realidade, chocante, pesada: o futebol do interior morreu. Clubes que se orgulhavam de ser viveiros de craques agora só existem no papel e em nossa memória afetiva.

Não é por acaso que o quarteto que citei ali atrás acaba de desabar para a 3.ª Divisão paulista. Não veio do nada a queda do Guarani. Também não é por azar que a Inter de Limeira, campeã estadual em 1986 em cima do Palmeiras, foi empurrada para a 4.ª Divisão. Lembro quando Fran Augusti, na época editor de Esportes do Estado, me despachou pra Terra da Laranja para conversar com o técnico Pepe e mostrar que fenômeno era aquele que ousava tirar a hegemonia dos grandes.

Hoje esses times na prática não contam mais, não têm peso, não alteram campeonatos, não acrescentam. Só reforçam a constatação de que a vida passa, de que ciclos se fecham, de que aumenta nossa lista de saudades. Para quem como eu há algum tempo cruzou “o meio do caminho de nossas vidas” – isso quem escreveu foi um tal de Dante Alighieri, que não jogou na Fiorentina –, o enfraquecimento do futebol caipira só nos torna mais nostálgicos.

Fazer o quê? Só posso agradecer o encantamento que me proporcionaram XV de Piracicaba, Guarani, Ponte, Velo Clube, São Bento, América de Rio Preto, Prudentina, Desportiva de Guará, Botafogo de Ribeirão e tantas equipes que embalaram a emoção de milhões de torcedores. Para elas, digo que estarão sempre no meu coração. Pela vida eterna, amei.

QUE É ISSO, SILVEIRINHA?!
Roberto Silveira entra na minha lista dos estraga-prazeres. O juiz uruguaio que passou pelo Palestra Itália, anteontem, teve a insensibilidade de expulsar Wilson, por ele ter levantado a camisa na comemoração do gol de empate do Sport contra o Palmeiras. Ah, Silveira estava certo, porque a regra não permite esse tipo de manifestação. Ora, a regra não permite também cera e jogo violento e, no entanto, muitas vezes os juízes fecham os olhos para essas coisas feias. Mas são lépidos em punir um jogador que, na euforia, levanta a camisa ou se aproxima do público. São coveiros do futebol.

O REI E A BEBIDA
Pelé pisou na bola em muitas ocasiões. Mas em favor do Rei é necessário reconhecer: nunca fez propaganda de bebida alcoólica. Uma postura fenomenal.

* Esta coluna é publicada todas as sextas-feiras no jornal ‘O Estado de S. Paulo’, na seção ‘Boleiros’

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