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PIRIBEBUY

Jotabê Medeiros

29 de junho de 2010 | 14h41

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Vejo pela televisão as cenas da multidão comemorando o feito histórico da seleção paraguaia nas ruas de Asunción e não tem jeito: fico emocionado.
Em 1996, estive em Piribebuy, simpática cidadezinha a 70 km de Assunção, para fazer reportagem tipo making of de um filme, uma co-produção Brasil-Argentina-Paraguai.
Piribebuy foi palco de uma das últimas batalhas da Guerra do Paraguai, lugar de galinhas debaixo das mesas dos botecos e vacas atravessando a estrada na frente do ônibus.
Andei pelo centro e notei que uma das colunas de um prédio atingido pelo Exército imperial brasileiro durante a Guerra do Paraguai tinha uma placa: “Coluna atingida por tiro da artilharia brasileira.”
Ali, almocei e dividi uma garrafa de vinho com o ator argentino Mario Lozano, 83 anos, 60 filmes no currículo. Ele participou de Caídos no Inferno, de Luis Cesar Amadori, e El Sur, de Fernando Solanas. Um gigante.
A produção do filme recriou um Cinema Paradiso fake num cinema abandonado no centro de Piribebuy, que virou o fictício Cine Teatro Princesa. Comi empanadas frias e tomei café fraco com Paulo Betti. A câmera com que filmavam era a mesma utilizada no set de Gabriela, de Bruno Barreto. Havia uma diva argentina no set, Letícia Vota, temperamental e insegura. Os telefones ficavam mudos a maior parte do tempo. As pessoas eram amáveis e havia grande ternura na precariedade.
Voltando de ônibus para Assunção, vi as meninas de traços indígenas com suas saias plissadas azuis e as camisas imaculadamente brancas indo para a escola.
Conto tudo isso para dizer que me emocionou hoje a seleção paraguaia entre as 8 melhores do mundo. Não por compaixão, não por algum tipo de autocomiseração latino-americana. Não. A seleção paraguaia tem grandes limitações, mas sua vitória no finzinho foi um atestado de fibra e força de vontade. De garra e tenacidade. O último pênalti convertido por Cardozo me levou de volta a Piribebuy e às paredes descascadas de uma igreja sem sino.

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