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Quem disse que camisa não pesa?

Antero Greco

29 de outubro de 2009 | 21h48

Perdi a conta das vezes em que ouvi falar que não existe mais bobo no futebol. O lugar-comum serve para ratificar a evolução de equipes pequenas, embora seja usado, e com abuso, para explicar tropeços de favoritos contra rivais menos poderosos. Se o Paulista ganha a Copa do Brasil, se recorre ao ditado e está justificado o fiasco do Fluminense. Se o Santo André também fatura o simpático torneio nacional, alguém tira do bolso essa máxima e se absolvem os pecados do Flamengo. E vida que segue.

Gosto quando há um intruso que tira o sono ou rouba a taça dos poderosos. Isso diverte e reforça o caráter democrático do ludopédio brasileiro. Mas, desde a época em que a bola de respeito era de capotão (número 5), chuteira se chamava chanca (era apenas preta) e calção de goleiro tinha acolchoado para amortecer a queda, que camisa pesa. E como! Podem ocorrer surpresas, de vez em quando aparece um azarão, porém na hora H prevalece quem tem história, lastro, elenco, torcida e acima de tudo carisma e aura de vencedor. Pode parecer opinião elitista; no entanto, não considero assim. Trata-se de constatação, fato, números.

Tomo como exemplo o Campeonato Brasileiro, seja na versão antiga (aquela da Copa Brasil ou do Robertão dos anos 60), seja na versão moderna, em vigor desde 1971, com suas diversas fórmulas e nomes oficiais. Coloque um google e confira que na lista de vencedores predominam potências como Flamengo, São Paulo, Santos, Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Palmeiras, Corinthians, Inter, Grêmio. Há ganhadores mais esporádicos, como Coritiba, Atléticos (PR e MG), Bahia, Sport, Guarani, Fluminense, que ainda assim são representativos.

A edição atual da Série A pela enésima vez comprova a tese (ou seria lugar-comum?) de que o peso da camisa faz a balança pender para o lado daquela mais estrelada. O São Paulo é exemplo que se ajusta à perfeição. Largou fraquinho, sem jeito, ensaiou algumas vezes jogar a toalha e abandonar o sonho do tetra consecutivo ou o hepta alternado. E eis que o tricolor deu salto de qualidade na arrancada final e na quarta-feira foi pra cama no topo da classificação e com pressão sobre os rivais.

Não topo falar em sorte e não tem essa de que os deuses do futebol assim quiseram (outro lugar-comum chato). Conta a tradição de o clube formar boas equipes, em que há jogadores acostumados a momentos de definição. E o São Paulo os tem, em Rogério, Bosco, André Dias, Richarlyson, Hernanes, Jorge Wagner, Washington. Não formam um supertime, porém novamente podem fazer a torcida sonhar com outro episódio de grandeza.

Apelei para o São Paulo mais para desenvolver esta conversa das sextas-feiras. Não cravo favoritismo, porque sou macaco velho e porque, da forma como está embolada, essa briga tem final imprevisível. De qualquer forma, dê uma espiada em quem está na corrida pelo título e veja como lá estão Palmeiras, Atlético-MG, Inter, Flamengo, Cruzeiro. Agremiações cujas camisas somam toneladas de glórias. O resto é coadjuvante.

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