Vai para o estádio e torce contra o próprio time. Dá para acreditar?
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Vai para o estádio e torce contra o próprio time. Dá para acreditar?

Luiz Zanin Oricchio

28 de novembro de 2010 | 22h25

No Brasil, futebol não é encarado como um simples esporte. É religião. Quem torce de verdade por um time sabe do que eu estou falando. Quem nunca chorou com aquela derrota doída? Ou gritou até ficar sem voz quando a equipe foi campeã depois de passar por tanto sufoco? E qual o brasileiro fanático por bola que nunca entrou naquelas intermináveis discussões com os colegas para tentar provar, por A + B (mesmo que isso as vezes pareça impossível), que o seu clube é melhor do que o rival?

A adoração pelo nosso time é o que nos faz ser apaixonado por este jogo. Afinal, quem não torce para ninguém, não gosta de futebol. Não costuma nem ser levado a sério, é o famoso café-com-leite. Então, como é possível imaginar que alguém vá para o estádio torcer contra o próprio time? Eu jamais teria acreditado se alguém tivesse contado, mas eu infelizmente vi isso acontecer na antepenúltima e penúltima rodadas do Campeonato Brasileiro 2010.

Primeiro foi a torcida do São Paulo. Mesmo com o time na briga por uma vaga na Libertadores (competição que os são-paulinos adoram), preferiram ver a equipe levar um baile do Fluminense em Barueri – 4 a 1 – do que imaginar a possibilidade de o arquirrival Corinthians ser campeão brasileiro no ano do centenário.

Uma semana depois, também em Barueri, eis que a cena se repete, mas com a torcida do Palmeiras. E a coisa foi até pior. Dinei, que fez o gol, foi xingado, e o goleiro Deola sofreu. Por estar fazendo boas defesas, quase foi agredido (arremessaram objetos contra o atleta no campo de jogo) e deixou o gramado visivelmente decepcionado. A pressão foi tanta que o Fluminense acabou vencendo por 2 a 1, para a festa das duas torcidas.

O fato é que a Arena Barueri – aconchegante estádio na Grande São Paulo – presenciou dois dias que vão para as páginas tristes da história do futebol brasileiro. São Paulo e Palmeiras não admitem ter ‘entregado’ os jogos para o Flu, mas, pelo visto nas partidas, fica claro que as duas equipes não tinham a menor condição de vencer.

O torcedor que saiu de casa e foi até Barueri para torcer contra o próprio time não tem moral para cobrar jogadores ou diretoria no futuro. Sim, porque se pediram para perder, não podem reclamar quando a equipe não ganhar.

A rivalidade existe e é importante e boa para o futebol, mas exigir uma derrota do seu time para prejudicar o arquirrival é ridículo. Palmeirenses e são-paulinos que tomaram esta decisão provaram que são mais anticorintianos do que torcedores dos seus próprios clubes.

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