Alex Stewart, um amigo que o boxe me deu

Alex Stewart, um amigo que o boxe me deu

No "Dia do Amigo", vale a pena recordar quando conheci um dos caras mais legais que o boxe já teve. Ele não foi um supercampeão, mas um ser humano sensacional

Wilson Baldini Jr.

20 de julho de 2020 | 14h30

 

Em 1999, eu trabalhava no Estadão e na ESPN Brasil, onde convivia diariamente com Edson Leal, o mago da computação gráfica. Um dia cheguei para trabalhar e disse que iria cobrir, em Las Vegas, a luta entre Mike Tyson e sul-africano Frans Botha. O duelo era interessante, pois se tratava da primeira aparição do ex-campeão após as mordidas em Evander Holyfield, em 1999.

As preliminares também eram bastante legais. Robert Garcia, atual técnico de Esquiva Falcão, Zab Judah e John John Molina também iam se apresentar. E que nos chamou mais a atenção foi o combate entre os pesos pesados. Não por ser na categoria mais importante do boxe, mas porque Alex Stewart estaria em ação.

Leal era fã de Stewart. Não por ele ser um supercampeão, mas por ser um cara determinado, valente, corajoso e bom caráter. “Balda, me arruma um autógrafo do Destroyer (apelido de Stewart)?” O pedido foi aceito de imediato e lá fui eu para Nevada, nos Estados Unidos.

Logo ao chegar no hotel MGM, local da luta, na segunda-feira da semana do evento, me dirigi para a parte externa, em um dos vários estacionamentos, onde a organização havia instalado algumas tendas. Em uma delas, os pugilistas se exercitavam todos os dias. E quem estava lá? O Stewart!

Esperei o treino acabar, cheguei perto e disse: “Stewart, meu nome é Wilson Baldini, sou jornalista do Brasil”. E ele, assustado, respondeu: “Puxa, do Brasil. E você me conhece?” Eu sorri: “Lógico. Você tem fãs lá. Edson Leal, meu amigo, é um deles. Aliás, nós achamos que você ganhou do Foreman (George).”

Os olhos de Stewart encheram de lágrimas. “Sério? Vocês acham mesmo? Eu ganhei, né? Mas os jurados não me deram a vitória”, disse o inglês, filho de jamaicanos, que morava em Nova York, referindo-se ao duelo de 1992, quando destruiu o rosto do ex-campeão mundial, mas as papeletas apontaram um empate (94 pontos) e dois a favor do ex-campeão (94 a 93). Um resultado positivo poderia tê-lo colocado em uma disputa de título mundial.

Emocionado, Stewart deu um autógrafo, que é guardado até hoje pelo Leal, e me perguntou: “Você vai ver minha luta sábado?” E eu respondi que “sim”, ao apertar sua mão. “Vou torcer por você”. Com um sorriso tímido, tocou no meu ombro: “Muito obrigado, a gente se vê.” Liguei para o Leal na sequência e contei todo o encontro. Dava para sentir a emoção dele pelo telefone. Na sexta-feira, véspera da luta, fui na pesagem, mas não consegui falar com Stewart.

No sábado, cheguei cedo no ginásio do MGM e uma das primeiras lutas era Alex Stewart x Lance Whitaker. Com pouca gente presente, fui sentar na primeira fileira, o meu lugar certo era na sétima. A luta começou e eu passei a gritar como um louco para incentivar Stewart. Só no terceiro assalto, percebi que falava em português. A partir daí, passei a usar meu inglês “macarrônico”. Não sei se ajudei de alguma forma, mas a luta acabou no sétimo assalto.

Stewart, que não tinha mais a mesma resistência que o fez ser protagonista de duelos sensacionais com Evander Holyfield e George Foreman, desceu do ringue cabisbaixo. Como os seguranças não me deixaram chegar perto do quadrilátero, gritei: “Stewart!” Ele se virou para mim, fez o sinal de positivo e sorriu.

Por causa do trabalho, não consegui mais ver Stewart, que só lutou mais uma vez em 1999 e pendurou as luvas. Em 16 de novembro de 2016, ao “navegar” pela internet, fiquei sabendo de sua morte prematura, aos 52 anos. Liguei na mesma fora para o Leal. Falamos rapidamente e ficamos muito tristes. A ligação chegou ao fim e eu chorei sozinho. Meu amigo, que o boxe me dera, havia morrido.

 

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