Morreu Edgard Alves. Com quem eu vou falar de boxe?

Morreu Edgard Alves. Com quem eu vou falar de boxe?

Um dos jornalistas mais conceituados do Brasil, especialista nas modalidades olímpicas, tinha 73 anos e foi vítima de enfarte

Wilson Baldini Jr.

04 de fevereiro de 2022 | 17h44

 

Em fevereiro de 1993, entrei na redação da Folha de S. Paulo com uma dupla sensação de medo. Uma por estar iniciando meu trabalho de repórter na casa e outra por ter a possibilidade de conhecer um ídolo da profissão: Edgard Alves. para mim, ele era o Pelé do jornalismo esportivo.

Na década de 80, quase todos os dias, meu pai trazia a edição do dia anterior da Folha. E eu logo corria para ler as matérias do Edgard. Geralmente, eram sobre atletismo, basquete, boxe, modalidades nas quais ele era a maior referência.

Lembro que estava sentado na redação de costas para a entrada e escutei alguém dizer: “Fala aí, Edgard!” Gelei. O cara era uma lenda. A cara fechada dele me intimidou ainda mais. Mas eu tinha de quebrar esta barreira.

Eu me aproximei e disse: “Olá, Edgard. Sou novo na editoria e queria dizer que sou seu fã.” Ele me olhou fixo e disse: “Deixa de besteira. Senta aí.” Daí para frente e até hoje, ele se tornou o meu professor. Nunca consegui alcançar o mesmo nível do texto ou do conhecimento dele, mas ganhei sua amizade.

Nos falávamos quase todas as semanas. “E aí, Baldo, que luta boa, hein”, ele me perguntava às segundas-feiras. Quando conversávamos na sexta, ele queria saber que lutas teríamos. A conversa era sobre tudo. Ele esteve no meu casamento, adorava minha família, como eu gostava da dele, apesar de vê-los quase nunca.

Na última quarta-feira, falamos de tudo, menos de boxe. E ele me contou do início da carreira, dos jantares de madrugada no centro da cidade, lembranças de uma vida. Rimos para caramba. Foi uma despedida. Que vontade de falar só mais um pouco!

Edgard, prometo que sempre vou tentar melhorar os textos, o português, deixá-los mais limpos, enxutos, como você gostava. “Liguei só para saber como você estava”, você sempre dizia. Em todos os momentos importantes, bons ou ruins, nunca faltou o seu telefonema. Para comemorar ou para apoiar. Nem sei dizer a falta que você vai fazer. Obrigado por ter sido um grande homem, um grande jornalista e acima de tudo, obrigado por ter sido um grande amigo. Obrigado por tudo.

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