Félix, um amigo que se foi

Jornal da Tarde

24 de agosto de 2012 | 16h33

Levei um baque logo cedo nesta sexta-feira. O telefone tocou e recebi da neta do meu grande amigo Félix a notícia de que ele tinha morrido. Para mim foi uma grande perda, porque eu tinha muita afinidade com o Papel (apelido do Félix porque ele era muito magro quando jogava).

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que ele nunca teve o reconhecimento que merecia por ter sido um senhor goleiro. Tem muita gente que diz que a Seleção de 70 não precisava de goleiro porque tinha um ataque espetacular. Isso é uma tremenda bobagem. O Félix deu sua contribuição para o título, e foi fundamental em dois jogos: contra a Inglaterra, quando fez duas defesaças (a segunda mostrando muita coragem) quando o jogo estava 0 a 0, e na final com a Itália, quando pegou duas ou três bolas importantes depois que sofremos o empate.

Um grande goleiro aparece nessas horas, evitando gols em momentos críticos de partidas decisivas. E posso garantir que o time inteiro tinha muita confiança no Papel, porque ele passava segurança para os companheiros. Era um goleiro muito ágil, seguro e que não precisava ser espalhafatoso.

O Félix sempre fumou muito, desde os tempos em que jogava. Outro fumante inveterado era o Gérson. E os dois tinham outra coisa em comum: sofriam de insônia. Por isso, o Zagallo tomou uma sábia decisão quando começamos a nossa preparação na altitude de Guanajuato, já lá no México: botou os dois no mesmo quarto. Ah, e obrigou os dois a reduzir de 40 para 20 o número de cigarros que fumavam por dia.
Eu dei graças a Deus por isso, porque às vezes sofria com o Gérson nas concentrações do Botafogo. Já pensou como seria ficar no quarto com um deles durante três meses seguidos? O cara ia ficar fumando até pegar no sono e eu no meio daquela fumaça…

Ali comecei a estreitar minha amizade com o Papel, com quem depois tive o prazer de jogar no primeiro ano da “Máquina do Fluminense”, em 1975. Antes de sermos companheiros, meti alguns gols nele quando jogava pelo Fogão e pelo Flamengo.

Por causa do cigarro, ele tinha uma tosse muito feia. Às vezes tinha uns ataques e ficava curvado de tanto tossir, e quem estava em volta via aquela cena com aflição porque não tinha o que fazer. Quando isso acontecia eu me lembrava do João Saldanha, que tinha a mesma tosse por causa do cigarro.

Só lamento que a CBF sempre tenha tratado com tanto descaso os jogadores da geração que tornou o futebol brasileiro admirado no mundo todo. Em 2006, por exemplo, os alemães convidaram todos os jogadores campeões mundiais para acompanhar a abertura da Copa do Mundo. A CBF nunca fez uma gentileza que chegasse perto disso para os jogadores de 58, 62 e 70.

Vai em paz, querido Papel. Você fez muito mais pelo torcedor brasileiro do que João Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin e outros cartolas do mesmo naipe juntos.

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