O futebol precisa do talento do Ganso

Robson Morelli

18 de setembro de 2012 | 12h16

Não vejo a hora de que chegue ao fim a novela sobre o destino do Paulo Henrique Ganso, porque estou com saudade de vê-lo em ação motivado. Ele é uma ave rara no futebol brasileiro infestado de brucutus, um meia-armador da estirpe de Gérson, Rivellino e Ademir da Guia, um meia canhoto habilidoso e inteligente como Tostão, Pita, Aílton Lira e Alex (que por sinal acaba de ganhar uma estátua na Turquia, honraria que jamais caberá a quem só corre e dá trombada…).
Essa gente desfilava (o verbo vai para o presente nos casos de Alex e Ganso) pelos gramados com uma classe admirável.

Entendo perfeitamente suas preocupações com o futuro e a carreira. Acho que ele está certo em não dar mole para os dirigentes santistas, e que deve fazer o mesmo com relação aos seus agentes. Porque essas pessoas – tanto no clube como os empresários – só querem saber do craque enquanto podem sugá-lo. Quando acaba o suco, não hesitam dois segundos em lhe dar um pontapé no traseiro. Escrevo isso por experiência própria, porque fui chutado do Botafogo em 1972 – como o grande Gérson havia sido em 1969.

Nessa briga que vem de longe com os cartolas da Vila quem mais perdeu foi o futebol brasileiro, que se viu privado do futebol refinado e inteligente do Ganso. As lesões o atrapalharam muito, é verdade, mas se ele estivesse com a cabeça tranquila – ou se tivesse sido vendido antes – teria tido mais condições de jogar toda a bola que sabe.

A Seleção precisa de gente como ele no meio de campo para pensar e organizar o jogo. Esse negócio de jogar com só um homem de criação é uma roubada, porque se o adversário anula esse homem amarra o time.

Sempre defendi e vou continuar defendendo que o meio de campo tenha dois meias que saibam passar, tabelar e finalizar, e é por isso que acho que o Ganso vai se dar muito bem ao lado do Jadson se for para o São Paulo.

Fiquei animado com a formação que o Ney Franco colocou em campo contra a Lusa, com um volante que sabe jogar (Denílson), dois meias (Maicon e Jadson), dois atacantes velozes abertos (Lucas e Osvaldo, que é bom de bola) e um fazedor de gols que também tem recursos (Luis Fabiano). É uma luz no fim do túnel num futebol em que predominam o pragmatismo e a “eficiência”.

Imaginem o Ganso ao lado do Jadson metendo passes para os três da frente e fazendo o time rodar a bola para desgastar o adversário e manter o resultado. Vai ser uma beleza.

Torço muito por você, Ganso. Mostre seu talento e cale as hienas que querem te ver por baixo.

NOTAS

‘Professor’ tem cada uma…
A torcida do Cruzeiro não aguenta mais o Celso Roth e deixa isso claro a cada jogo, mas o “professor” não perde a pose. Depois do empate com o Vasco, ele soltou a seguinte bobagem: “A torcida tem o direito de protestar, mas estamos em oitavo lugar mesmo tendo carências sérias no elenco.” Puxa, que bom, o time está em oitavo lugar… Quer dizer, o cara dá a entender que se não fosse por seu trabalho o time estaria pior. Então, tá…

Cenas lamentáveis
Fiquei abismado com as imagens de descontrole de jogadores e torcedores que vi no clássico entre Palmeiras e Corinthians no Pacaembu. Os jogadores palmeirenses entraram muito pilhados, mais preocupados em brigar e discutir do que em tentar jogar bola. O Luan, então, estava alucinado. O que me incomoda é ver que nenhum jogador do Verdão tentou acalmar o time e botar na cabeça dos companheiros que aquela postura não levaria a nada. Faltou um líder para gritar com os companheiros e mostrar a eles que o caminho era botar a cabeça no lugar. Fora de campo, o comportamento de alguns palmeirenses foi uma barbaridade. Invasão das tribunas, tentativa de agressão a dirigentes, depredação do restaurante do Frizzo… Será que com a ajuda das imagens a polícia não consegue prender esses valentões? É preciso punição severa para os vândalos que se dizem torcedores.

O show do Barça não para
Depois de apenas quatro rodadas do Campeonato Espanhol, o Barcelona já tem oito pontos de vantagem sobre o Real Madrid. Que delícia! A filosofia de jogo que deu tão certo com o Guardiola foi mantida pelo Tito Vilanova, e o time continua asfixiando os adversários com seu jogo coletivo e sua absurda posse de bola. O time que ataca e tem qualidade sempre terá mais chance de ganhar, mas nossos “professores” parecem não entender isso…

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