O melhor técnico que conheci

Jornal da Tarde

21 de agosto de 2012 | 17h03

Numa época em que os “professores” se preocupam mais em montar o time para não perder, vou dedicar este texto ao maior treinador que tive ao longo da minha carreira: Valdir Pereira. Para os que não conhecem a história do futebol brasileiro, esclareço que esse senhor era conhecido como Didi.

 Como jogador foi um gênio. Elegante, inteligente, habilidoso… Sabia tudo com a bola. Como técnico, tinha obsessão pelo futebol bem jogado.

Tive a honra e o privilégio de trabalhar com ele no timaço do Fluminense de 1975. É justo que se diga que foi graças ao trabalho do Didi que aquela equipe passou a ser chamada de “Máquina” – e é conhecida assim até hoje. O que ele mais falava pra gente era o seguinte: “Time meu não dá chutão. Quero a bola o tempo todo.” Notaram alguma semelhança com os conceitos que tornaram o Barcelona do Guardiola admirado no mundo inteiro três décadas depois?

O Príncipe Etíope (como era chamado pelo Nelson Rodrigues por causa da sua elegância) parava o treino sempre que alguém rifava a bola. Ele exigia que a bola passasse de pé em pé e dizia que não precisávamos ter pressa para chegar na área, porque enquanto a bola estivesse com o nosso time só nós poderíamos fazer gol. E que quanto mais ficássemos com a bola, mais o adversário ia cansar.

 Ele vivia pegando no pé no Toninho Baiano, o nosso lateral-direito. O Toninho gostava de pegar a bola e sair correndo para a linha de fundo, e às vezes não percebia que o campo tinha acabado. O Didi dizia: “Pra que essa pressa toda? Toca a bola.”

Uma vez fomos jogar um amistoso em Goiânia contra o Atlético. Começamos a tocar e em 15 minutos estávamos ganhando de 3 a 0 sem que os caras tivessem chegado perto da redonda. Aí um jogador deles virou pro Rivellino e pediu para a gente dar uma maneirada, senão eles iam passar 90 minutos só correndo atrás da bola.

Como foi um craque, o Didi sabia mostrar para o jogador o que queria que fosse feito. Não é como esses professores de educação física que viram treinador, ou esses zagueiros botinudos que estão aos montes dirigindo times da Série A. Esses caras que nunca chutaram uma laranja ou não sabiam tratar a bola só podem ensinar os jogadores a marcar, correr, fazer faltas, apelar pro antijogo… O Didi era diferente.

Tem uma história famosa que vale a pena ser lembrada. Num treino nas Laranjeiras, a gente ficava em fila, tocava pro Didi na meia-lua e ele rolava pra gente chegar batendo de primeira. Numa certa altura, o Mário Sérgio, que estava começando, falou: “Será que esse senhor jogou tanta bola como dizem que jogou? Vou dar uns passes envenenados pra ver se ele devolve redonda ou apanha da bola.”

Dito isso, sempre que chegava a sua vez o Mário dava a bola cheia de efeito naquele gramado irregular para ver se complicava a vida do Didi. E o mestre ajeitava todas de primeira. Lá pelas tantas, o Didi mandou essa: “Garoto, você vai cansar de tentar me derrubar e não vai conseguir.” E todo mundo caiu na risada. Se os “professores” de hoje recebem uma bola assim com certeza batem de canela ou vão pro chão…

 O Didi se preocupava em fazer o jogador melhorar nos fundamentos: passe, drible, chute, cabeceio… Hoje os técnicos só trabalham bola parada e marcação. E, como todo craque que se preza, o negócio dele era montar o time para tomar a iniciativa de atacar e envolver o adversário. Não foi por acaso que a melhor seleção peruana da história, a de 1970, era treinada por ele. O goleiro e a defesa eram uma porcaria, mas do meio de campo para a frente era uma equipe excepcional, com jogadores muito habilidosos.

 É de técnicos como o imortal Didi que o futebol brasileiro precisa para recuperar a sua essência.

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