Ágatha, campeã mundial, esbanja autenticidade, personalidade e fala da realidade no vôlei de praia

Bruno Voloch

31 de julho de 2015 | 07h08

A data de 4 julho de 2015 jamais será esquecida por Ágatha Bednarczuk.

No primeiro sábado do mês, nas areias de Haia, na Holanda, Ágatha, ao lado da parceira Bárbara, ganhou o inédito título mundial de vôlei de praia. A final histórica envolveu ainda as brasileiras Tatiana e Fernanda Berti.

Aos 32 anos, a jogadora alcança o ápice da forma física e técnica. Mas se engana quem acha que tudo são flores na vida da paranaense Ágatha. Não mesmo.

A atleta se mostrou diferenciada na entrevista ao blog.

Profissional ao extremo, Ágatha falou dos momentos de superação no esporte, as dificuldades em conseguir patrocínio, apoio das entidades, vaidade, preconceito, rivalidade e sonho olímpico.

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O que mudou na sua vida profissional e pessoal após o título mundial?

Vencemos a Copa do Mundo num sábado a noite e no domingo pela manhã já estávamos viajando para Suíça, para jogarmos a etapa seguinte do Circuito Mundial. Então, comemoração pelo título infelizmente não houve. Nossa cabeça já estava conectada para o próximo torneio, afinal, o próximo valia pontos para a corrida olímpica brasileira, a Copa do Mundo não.
Senti uma comoção grande nas redes sociais e nos meios de comunicação com a vitória na Holanda. Centenas de pessoas compartilhando fotos, curtindo, mandando mensagens. Minha cidade de coração, Paranaguá, praticamente parou. Todos estão muito orgulhosos e se sentem representados por nós no esporte.

Qual foi sua sensação no último ponto do jogo?

Foi uma explosão de sentimentos. Muito difícil definir o que eu senti naquele último ponto. Só conseguia rir, gritar, pular. Eu olhava pra Bárbara do meu lado e ela só chorava. Eu só ria. Cada um sente de um jeito. Pra mim era um sentimento de trabalho realizado, sensação de plenitude, que tudo estava no lugar certo. Na hora do pódio que consegui racionalizar um pouco mais e lembrei de vários perrengues que passei, pra chegar ali naquele momento. A vida do atleta é cheia de sacrifícios e as conquistas nos dão ainda mais motivação, para continuar a querer mais. Realmente é uma delícia vencer.

Sem demagogia. Como funciona a rivalidade com as demais duplas brasileiras?

Eu acho muito louco isso no vôlei de praia. Porque nos outros esportes, normalmente você não convive tanto com os seus adversários. No vôlei de praia a gente fica bastante juntos. Viaja juntos, fica no mesmo hotel, se alimenta no mesmo lugar, enfim, a convivência é bem grande. Sobre a rivalidade eu posso falar por mim e não pelos outros. Eu encaro as meninas como minhas companheiras de trabalho. Minha geração é esta e é com elas que vou disputar os campeonatos. Dentro de quadra sou muito agressiva com meu jogo e ali quero vence-lás sempre. Cada uma buscando seu lugar ao sol. Fora de quadra falo com todas. Não sou amiga pessoal de nenhuma delas, mas as considero colegas com certeza. Para mim, a rivalidade é dentro de quadra. Quem leva pra fora, na minha opinião, demonstra certa insegurança.

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E a nossa estrutura? É a ideal?

Eu estou tendo neste ciclo olímpico, pela primeira vez, o apoio da Confederação e do Ministério dos Esportes. É muito óbvio que quanto mais dinheiro for injetado corretamente no esporte, mais frutos e resultados ele nos dará. Em 2012 eu estava jogando o mesmo circuito, com a mesma equipe e tendo que fazer contas apertadíssimas, para conseguir jogar todos os torneios e trazer para fora do país pelo menos meu técnico e auxiliar. Três anos depois estamos com uma estrutura muito melhor, com uma equipe muito maior e parte destes gastos sendo patrocinado pelo Ministério dos Esportes e CBV. Minha felicidade seria 100% se este apoio acontecesse a partir do momento que você passa a representar o seu país. Joguei durante muitos anos representando o BRASIL, algumas vezes com ajuda de patrocinadores e em todas as vezes colocando dinheiro do meu bolso. Então se este apoio se perdurar, acho que as próximas gerações pularão algumas fases difíceis que tive que passar e talvez conseguirão mais rapidamente os resultados, que eu só depois de muito tempo estou conquistando.

Você espera maior reconhecimento?

Sou tão pé no chão que sinceramente nunca espero nada de ninguém. Mas ok. Vamos lá. Acabamos de ganhar a Copa do Mundo e isso não é qualquer coisa né? Meu nome e o da Bárbara agora estão marcados na história com esta conquista. Eu realmente estou muito feliz, mas a gente tem um objetivo muito grande que é estar nas Olimpíadas ano que vem. Então parece que tudo esta caminhando ainda. Este foi um degrau da nossa carreira. Queremos mais. Então é difícil ficar falando de reconhecimento neste momento, sendo que nossa mente esta tão focada no nosso objetivo maior. A confederação nos reconhece com homenagens e prêmios. Sobre patrocinadores, infelizmente nosso patrocinador esta saindo de cena e nós estaremos sem apoio. Um ótimo reconhecimento neste momento, seria achar empresas que quisessem nos apoiar e fechar parcerias com a gente. Será que esta medalha nos ajudará com uma nova parceria? Eu sinceramente espero que sim. Queremos continuar trabalhando muito e representando da melhor forma nosso país. Alguma empresa se habilita?

Olimpíada. Como será essa disputa interna?

Se a pergunta é referente a conquista de uma das duas vagas, a resposta é: a briga esta muito boa. O vôlei de praia feminino está num altíssimo nível. Não me lembro de nenhum ano ver o Brasil no lugar mais alto do pódio, em todas as competições que houveram duplas brasileiras. Foram seis torneios e os seis o Brasil ganhou a medalha de ouro. Então por ai já da pra ver que a briga pela vaga esta disputadíssima. Já pensou estas vagas serem decididas só no último torneio, que será no Brasil? Pode acontecer isso sim. Dentro de casa.

A dupla Ágatha e Bárbara não era favorita ao título na Holanda. Isso faz diferença?

Olha, a gente tem um trabalho fabuloso com a nossa psicóloga. Então pra se ter uma idéia, muitas vezes a gente fica totalmente por fora das matérias que saem na imprensa e da falação das pessoas envolvidas no meio. A gente se blinda mesmo. Entramos no torneio e não sabíamos nada sobre quem era favorita ou quem não era. Entramos pra jogar e queríamos ganhar. Talvez isso tenha feito também diferença. Focar no que tem que ser feito e esquecer o resto. Então se a gente não era favorita, não fez a menor diferença no nosso caso. Mas concordo que nós não éramos uma dupla visada pela mídia.

dupla

Agora que se levantou definitivamente essa bandeira, como funciona essa questão do homossexualismo na praia? Existe respeito? E o assédio?

A questão homossexual na praia continua como sempre foi. Já tivemos e temos casais gays no meio e nada mudou, porque estas relações estão explanadas agora. Não acho que uma bandeira esteja sendo levantada. Acho que as pessoas querem ser felizes e livres. Imagino que deva ser muito repressor passar anos da sua vida tendo que esconder o que você pensa e quem você realmente é. Existe sim muito respeito. Eu nunca fui assediada por nenhuma mulher no vôlei de praia.

 

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