Carol Westermann : ‘Vivi um pesadelo e paguei remédio do meu bolso. Não tive suporte nenhum’.

Carol Westermann : ‘Vivi um pesadelo e paguei remédio do meu bolso. Não tive suporte nenhum’.

Bruno Voloch

23 de junho de 2020 | 08h03

O caso ‘Aninha’ mexeu com Carol Westermann.

A ex-jogadora de Curitiba, com passagem por Bauru e hoje atuando fora do BRASIL, também resolveu se pronunciar. Achou que era a hora certa de falar. E falou.

Carol diz confiar nas denúncias da companheira de profissão e relata tudo que passou após romper os ligamentos do joelho esquerdo em janeiro de 2018. Depoimento corajoso, duro e que retrata, segundo ela, descaso e abandono das partes envolvidas.

A atleta não poupa a CBV, Confederação Brasileira de Vôlei: ‘Nunca se pronuncia quando a questão somos nós atletas desconhecidas’.

Carol, 25 anos, se surpreende ao descobrir acordo entre a entidade e os clubes.

Por que você também resolveu se posicionar em relação ao ‘caso Aninha’?

Eu acredito muito que para cada coisa existe um tempo. O ‘caso Aninha’ mexeu comigo porque vivi quase a mesma coisa que ela, então penso que esse é o momento certo de falar tudo que guardei durante esse tempo todo atrás de muito sorriso e alegria que é o meu jeito de ser no dia a dia. Eu confio em cada palavra do que ela disse.

Você viveu algo semelhante na carreira?

Olha, em janeiro de 2018 sofri uma ruptura total do LCA do joelho esquerdo durante um treinamento em Curitiba onde a gente se preparava para a Superliga B. Toda lesão para um atleta é sempre muito difícil e comigo não foi diferente. O que fez a diferença nesse momento na minha vida, primeiro claro que foi saber que eu tenho Deus que nunca me abandona, e a outra foi ver minha família toda comigo dias após a lesão.

E como foi após a cirurgia?

Bem, operei 1 dia antes da estreia do campeonato. A cirurgia foi um sucesso, porém o inesperado aconteceu. Eu operei numa quinta-feira de manhã e no sábado liguei para minha fisioterapeuta, Ana Rebelo, um anjo na minha vida. Cuidou de mim e acreditou até o fim. Eu sofria com muitas dores na panturrilha. Ela, curiosamente, tinha me alertado que era o único lugar que eu não poderia sentir dor. No mesmo dia ela apareceu para me ver, atenciosa como de hábito. Iniciando a fisioterapia não conseguia ficar sentada com as pernas para baixo pois a dor continuava e imediatamente ela ligou para o médico que me operou.

O blog apurou que o responsável pela cirurgia Álvaro Chamecki

O que ficou decidido?

Foi então pedido um doppler venoso e diagnosticado uma trombose. Olha, por alguns momentos parecia que eu estava em um filme de terror.

Por que diz isso? Pode dar detalhes?

Digo porque na época eu não tive suporte nenhum. Era como se eu não existisse. O meu maior suporte mesmo foi a minha família. Minha mãe conseguiu com o diretor da escola dela 45 dias para poder ficar cuidando de mim, meu pai conseguiu uma semana e meu irmão também ficou alguns dias.

Qual foi a posição do clube? Suas companheiras de time?

As meninas do time que sempre estavam na minha casa, levavam comida e gelo duas duas vezes por dia. Nas duas primeiras semanas depois da cirurgia só tinha contato com a fisioterapeuta que estava sempre me mandando mensagem, porque para a comissão e diretoria era como se eu tivesse morrido.

E sua empresária?

Não era empresária. Era empresário. Mas nada fez. Prefiro nem lembrar.

Pode falar da sua recuperação como foi diante desse cenário de abandono relatado?

Posso. Primeiro digo que não sei o que teria acontecido porque quando descobri a trombose nem perguntaram o que eu precisava. Paguei do meu bolso. Cansei de comprar remédio para o tratamento com o meu dinheiro, deslocamento para dar entrada na papelada do plano de saúde para fazer exames, ir para a fisioterapia e eles sequer perguntaram ou se disponibilizaram. Agora, imagina se eu não tivesse plano de saúde? A maioria não tem. Vivi um pesadelo. E ainda ouvi de gente grande do clube dizer: ‘quando acabar o campeonato não vamos poder cuidar de você porque vamos estar de férias’. Acabou o campeonato vim para casa, com o meu dinheiro, paguei academia, sem nenhuma orientação médica e comecei a fazer a minha própria reabilitação.

O que fez depois disso tudo?

Orientada juridicamente, voltei para dar continuidade ao tratamento e fazer o que mais amo. Só que o pior ainda estaria por vir. Eu não recebia 1 centavo do time, o clube só me dava almoço e jantar durante a semana e moradia. Meus pais depositavam 50 reais toda semana sem poder. E tinha vezes que eu falava que não estava  precisando porque sabia que eles não tinham de onde tirar para me dar. A pessoa que mais me estendeu a mão foi a Valeskinha. Ela me levava para fisioterapia, para o mercado e por vontade própria chegou a pagar academia extra para que eu pudesse me recuperar e voltar o mais rápido. Até isso Curitiba se recusou a fazer.

Como você enxerga a posição da CBV?

A CBV, Confederação Brasileira de Vôlei, como sempre nunca se pronuncia quando a questão somos nós atletas ‘desconhecidas’.

Por que não foi atrás dos seus direitos como atleta?

Isso pode parecer muito bizarro para muita gente, mas no meio disso tudo, quando eu disse que iria atrás dos meus direitos uma ‘profissional’ do clube me disse que eu iria sair perdendo. Segunda ela, numa reunião com a CBV, ficou estabelecido que os clubes poderia denunciar as atletas que fizessem isso que então eles proibiriam os outros de contratar quem agisse assim. Palavras dela.

Como encontrou forças para estar de pé e jogando?

Tudo isso que aconteceu comigo não apagou meu sonho que continuar jogando e fazendo o que eu mais gosto. Eu vivi duas temporadas depois disso tudo no Peru. O Circolo Sportivo Italiano me recebeu de uma maneira absurda, sabendo que eu vinha de uma lesão séria, com muitas limitações e nada disso foi desculpa, terminamos o campeonato sem segundo lugar.

Sensação?

Foi nesse momento que eu olhei para trás e entendi que tudo o que eu passei foi necessário para eu me tornar quem eu sou hoje. Mas precisamos dar uma basta. Não somos máquinas, não somos animais que é só adestrar. Nós somos seres humanos. Quantas  existem espalhadas por aí?

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