‘Chega de interesses pessoais. Só os clubes podem salvar a Superliga’, afirma Vittorio Medioli.

‘Chega de interesses pessoais. Só os clubes podem salvar a Superliga’, afirma Vittorio Medioli.

Bruno Voloch

20 Fevereiro 2017 | 08h00

A crise na Superliga está escancarada. A insatisfação é grande. Passa pela  administração centralizada e ultrapassada da competição, discussão com a detentora dos direitos de transmissão e arbitragem. Vittorio Medioli, presidente do Sada/Cruzeiro, conversou com o blog.

O empresário italiano é o responsável direto pelo sucesso do clube que domina o vôlei brasileiro e mundial há anos.

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Ele é um apaixonado pelo esporte. Personalidade forte e opinião própria, sem medo de dizer o que pensa, algo raro nos dias de hoje seja em qualquer segmento que seja.

Medioli acompanha indignado os últimos acontecimentos envolvendo os problemas na Superliga. Preocupado, afirmou categoricamente que só os clubes podem salvar a competição tirando o controle das mãos da CBV, Confederação Brasileira de Vôlei:

‘A Itália nesse aspecto é o modelo a ser seguido. Outro nível. A ACV, Associação de Clubes de Vôlei, é uma realidade queira a CBV ou não. Precisamos de uma representatividade diante das entidades gestoras, buscar parceiros e a aprovação de projetos de Lei de Incentivo’.

Medioli falou da atual gestão da entidade:

‘A gente conhece faz tempo. Muita gente preguiçosa ligada diretamente na Superliga. Isso precisa mudar. As pessoas lá dentro visam apenas os interesses pessoais o que é grave demais’.

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O presidente disse que seu clube é um exemplo a ser seguido:

‘Sem desmerecer os outros nós nunca tivemos jogadores de 7 pontos. Buscamos Wallace em Araçatuba, William na Argentina, Isac não era conhecido e o Serginho tinha sido mandado embora do Minas como cara problemático. Por que todos esse vingaram aqui? Porque damos condição de trabalho a eles e temos um ambiente propício. Esses são apenas alguns exemplos. Poderia citar vários outros. Meu time ganha porque é uma família. Todo mundo quer jogar aqui. Recebo milhares de pedidos todos os meses de jogadores pelo mundo afora pedindo uma chance para jogar com a gente. Isso é motivo de satisfação pessoal. Leal e Simon deixaram de ganhar uma fortuna fora do BRASIL porque querem ser felizes. E são’.

Medioli vai além e cita as parcerias e a base do Cruzeiro:

‘Apesar de ser contra a maneira como as pessoas conduzem a Superliga eu nunca deixei de incentivar o esporte. Temos jogadores espalhados por todas as categorias de base da seleção brasileira. Emprestamos atletas e ajudamos os clubes como estaamos fazendo agora com Juiz de Fora. Temos uma estrutura inigualável. Aqui a coisa é feita com responsabilidade e harmonia. Nosso clima é saudável’.

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O dirigente explicou que não pode entrar e investir no feminino:

‘Não dá. É preciso focar e não mudar o que está dando certo hoje. Mas deixo claro que temos escolinha e uma base muito boa no feminino na região. Na categoria adulta o mundo feminino é bem diferente do masculino. Os caras não se entendem e a gente sabe quem manda e dá as cartas nas internas. Não saberia entrar para fazer figuração. Entro para vencer sempre e não me deixariam ganhar’.

Medioli não aliviou quando perguntado sobre a caótica arbitragem da Superliga:

‘Eu venci cinquenta e duas das últimas cinquenta e três partidas. Vou me preocupar? Os caras erram para valer mesmo. Bandeirinha agora é torcedor. Isso é grave demais. É normal a gente ver esses acontecimentos nos ginásios. Falta pulso e comando de fora. Em São Paulo isso era pior. Te digo que em Campinas é duro de ganhar mesmo ainda mais agora que virou xodó da CBV. O que fizeram com a gente na Copa Brasil não pode acontecer. É preciso ter bom senso. Eles erram bolas meio metro dentro da quadra e são considerados intocáveis. São pontos que podem decidir um set e uma partida. Mas tudo bem. É bom deixar os outros ganharem um pouco’.

Pergunto se o video chek, que a CBV alega não ter como bancar, seria uma solução:

‘Esse papo de que não existe dinheiro para colocar não me convence. Se gasta muito com o que não é necessário e pouco com o que efetivamente vale a pena. O resultado é esse. Duro. Fiz 4 anos o mundial de clubes e sei o que estou dizendo’.

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A escolha de Renan para a vaga de Bernardinho também foi pauta:

‘Prefiro não entrar muito nesse assunto. A gente conhece os bastidores e sabe como as coisas são conduzidas. Ainda assim, apesar de contrariado, torço para o vôlei brasileiro sempre. Quero títulos e vitórias. Vamos ver se o Renan consegue andar e se sustentar com as próprias pernas’.

Por fim, Medioli faz um apelo para que a CBV deixe efetivamente a Superliga nas mãos dos clubes:

‘Não vejo outro caminho. É só ver o sucesso e a realidade da NBB no basquete. Independência. Por que o vôlei não pode fazer o mesmo? A CBV teria o dela também em função das arrecadações. Já imaginou o quanto se perde de dinheiro atualmente? Será que a coisa é distribuída de maneira correta? Dá vontade de chutar o balde mas não faço isso porque o vôlei corre nas minhas veias. Nós temos o modelo ideal. Só os clubes podem salvar. A CBV atual parou no tempo’.