Dra Won-Held foge à regra, desafia cultura brasileira e vira exemplo no Fluminense.

Dra Won-Held foge à regra, desafia cultura brasileira e vira exemplo no Fluminense.

Bruno Voloch

26 Dezembro 2017 | 07h25

A rotina é pesada e o dia a dia muito corrido. A recompensa virá em breve. 2018 se aproxima e será muito especial para Carolina Won-Held.

A jogadora do Fluminense, indo na contramão do esporte brasileiro, vai se formar em direito no meio do ano.

É um caso raríssimo.

Por um motivo ou outro, a realidade é que no BRASIL são poucas aquelas que podem conciliar os estudos com o vôlei. Carolina, aos 25 anos, conseguiu. Ela enxerga longe e sabe que a carreira de atleta é curta.

O blog descobriu Carolina, ou melhor, a Dra Carolina.

Nessa entrevista ela fala da paixão pelo direito e confessa que já está ajudando juridicamente algumas companheiras de Fluminense quando é consultada. Faz, por enquanto, por prazer.

Carolina conta a experiência que teve na praia, explica o retorno ao Fluminense e deixa claro que, apesar de se formar em breve, pretende jogar por muito tempo ainda.

Como não poderia deixar de ser, falou da polêmica chegada de Tiffany ao vôlei feminino. Como futura advogada ou ainda atleta, Carolina defendeu o direito da jogadora de Bauru atuar entre as mulheres.

Como você consegue conciliar os estudos com o vôlei? Quais as maiores dificuldades?

Muita disciplina, disposição e muita cafeína. Enfrento essa dificuldade desde os 15 anos quando fui pra Saquarema e voltei atolada de provas, desde então soube aproveitar melhor meu tempo livre, pedir a ajuda dos colegas e professores. A Estácio, minha faculdade, me ajudou muito, principalmente depois da minha volta ao vôlei de quadra, abonaram minhas faltas, fiz prova na coordenação, em outra turma, em outros campus, e nesse final de período, o Fluminense também me ajudou, mudando horários de treino e academia pra eu poder conseguir fazer minhas provas. Um jeitinho aqui e outro ali com muito esforço e dedicação a gente consegue.

Por que a opção pelo direito?

Direito sempre foi minha segunda paixão, depois do vôlei é claro. Sempre gostei de argumentar, expor minha opinião e ajudar as pessoas principalmente. Claro que ter os pais advogados me ajudou porém eles nunca me forçaram a seguir esse caminho.

O que a Carolina como advogada faria em prol do esporte e do vôlei?

Acredito que eu possa ajudar muito os atletas, não só os do vôlei como de outras modalidades. Vou aliar minha experiência como atleta ao meu conhecimento e formação jurídica. Inclusive meus colegas sabendo que estudo direito, me perguntam e me pedem ajuda tanto com problemas profissionais como com problemas pessoais.E eu sempre tento ajudar e orientar da melhor maneira possível.

Algum exemplo dentro de quadra?

Sim, mas não posso citar nomes. Tenho uma amiga jogadora, que a mãe teve câncer e me fez algumas perguntas sobre a possibilidade dela assumir um concurso público no qual ela havia passado, porém ainda estava em tratamento. Consultei a legislação, e os meus pais, por ser um caso sério e a orientei. Casos de defesa do consumidor também, principalmente com operadoras de telefone. Sempre temos problemas e consigo ajudar e orientar da melhor maneira.

Você se considera uma exceção no esporte?

Me considero uma exceção sim, infelizmente, pois lá fora o que eu faço, que é conciliar esporte e estudo é comum. Porque lá fora eles são orientados a ter que jogar para conseguir uma bolsa de estudo ou algo assim. Já aqui, o atleta quer jogar para poder parar de jogar.

Como você avalia sua passagem pelo vôlei de praia?

De muito aprendizado. Me tornei uma pessoa e atleta muito melhor, amadureci, tomei consciência do corpo, alimentação, porque na praia tudo é muito individual e de muita luta. A gente não tem nada ganho, temos que correr atrás de parceira, passagem, montar estrutra, academia. E se você não tiver uma disciplina em dobro você não rende. E se você não rende, não ganha dinheiro. Foi muito bom e não me arrependo de ter ficado esses 3 anos. Se vou voltar ou não, só o tempo irá dizer.

Por que você escolheu voltar ao Fluminense?

Fluminense é a minha segunda casa. Participei do carioca adulto em 2015, quando o projeto começou, porém participei mais por carinho e gratidão pelo clube e comissão do que por saudade de voltar às quadras pois estava focada na praia. Porém de uns tempos para cá, a saudade bateu e eu tive vontade de voltar às quadras e ver o meu clube de coração, aonde eu comecei com todos os membros da comissão disputando a Superliga me fez ter mais saudade ainda e não tive dúvidas que o meu recomeço deveria ser aonde tudo começou.

Agora que vai se formar em breve você estabelece planos? Até quando pretende jogar?

Sim, concluir a faculdade no meio do ano, passar na prova da ordem e depois me dedicar integralmente ao vôlei porém sempre buscando conhecimento e me informando na área jurídica é claro, auxiliando e ajudando meus colegas. Não sei até quando pretendo jogar, vôlei sempre foi minha maior paixão e quero jogar ate eu me sentir feliz e bem.

Como você vê a chegada da Tiffany para a Superliga? Apoia?

Acho muito bom ver os transsexuais ganhando seu espaço merecido na nossa sociedade. Ela é uma mulher como outra, merece ser tratada como tal e tem todo direito sim de disputar qualquer esporte e competição no feminino.

Já se vê sendo chamada de doutora?

Além de jogar e estudar, também faço estágio na faculdade e no juizado. E doutor, já que é o tratamento que recebo dos clientes que atendo nestes lugares, mas confesso que ainda soa estranho.