Fernandinha: ‘Nunca quis ser unanimidade e muitos não gostavam do meu jeito de ser’.

Bruno Voloch

18 de setembro de 2015 | 08h45

Campeã olímpica em Londres 2012, a levantadora Fernandinha surpreendeu ao anunciar essa semana que estava abandonando o esporte.

A jogadora, procurada pelo blog, contou em detalhes que a decisão já estava amadurecida. Fernandinha falou das barreiras que enfrentou na carreira, revelou que não sente mágoa e que viveu na Europa seus melhores momentos no esporte.

fe1

Sincera como de hábito, disse que nunca fez questão de ser unanimidade e que as adversidades serviram e de incentivo no dia a dia.

Como você chegou a conclusão de que teria que se aposentar? 

Na verdade não é de hoje que sinto a necessidade de cuidar mais da minha vida pessoal. Precisava de novos desafios e objetivos diferentes. Pensava nisso já há algum tempo só que agora esse sentimento veio muito forte e não deu pra fingir que não sentia isso. Daí cheguei aqui no time de Nantes e percebi a falta de estrutura deles para que eu pudesse jogar bem e fazer um ano tranquilo e sem lesão. Percebi que perdi bastante a motivação, acredito que tudo misturado me fez decidir parar. Tive muita sorte pois foi uma rescisão tranquila. O presidente é uma pessoa de caráter, íntegra e me entendeu, aliás eles apreciaram minha honestidade e foram muito justos comigo também. Sem mágoas.

Você consultou a família ou foi uma decisão particular?

Aqui em casa meus pais nunca gostaram de se meter muito, sempre me deixaram tomar minhas decisões sozinha, eu muitas vezes pedi opinião sim é claro, mas desta vez não pedi não. Nada que meus pais dissessem ou qualquer pessoa pudesse falar para mim mudaria o que eu estava sentindo e não queria ser influenciada por ninguém. Resolvi só comunicar.
A Fernandinha jamais foi unanimidade. O ouro olímpico foi uma resposta para aqueles que não acreditavam em você?
Sinceramente nunca tive a pretensão de ser unanimidade. Nem Jesus foi. Certo? Quem sou eu… Sempre tentei dar meu melhor fazendo isso com muito amor e honestidade por onde passei. Muitos não apreciaram meu vôlei ou meu jeito de ser, mas isso só me fez crescer e então só posso agradecer também a essas pessoas pois hoje sou mais forte, mais madura graças a todas dificuldades que encontrei no meu caminho.
voleibr2
Por que a Fernandinha fez mais sucesso na Europa do que no BRASIL?
Difícil de responder esta pergunta. Me perguntei muitas vezes isso também. O que posso dizer é que não senti o preconceito quanto a altura na Europa, coisa que sempre sofri no Brasil. A maioria dos técnicos que tive a oportunidade de jogar junto aqui na Europa me respeitou e tínhamos um relacionamento de confiança, parceria. Assim acredito que tenha jogado mais feliz, mais solta e serena. Talvez na Europa por essas razões tenha me sentido mais forte e fui ganhando experiência e mais confiança. Já incomodou sim, mas faz tempo, hoje não mais.
Ficou mágoa? Ressentimento?
Mágoa? De jeito nenhum. Eu lembro bem de um técnico carioca quando eu tinha 13 anos e ele me falou: ‘Fernanda vai estudar porque você não vai crescer e não vai poder jogar profissionalmente’. Nunca esqueci disso, porque naquele momento eu pensei. Ele está errado e espero que viva pra poder ver isso. Isso sempre me fortaleceu sabe. Não tenho mágoa de ninguém. Tudo me serviu de escada.
fe2
Qual a melhor lembrança que você leva do vôlei?
Não posso dizer só uma lembrança pois seria injusto. As minhas melhores recordações foram os anos que joguei com Haírton Cabral em São Caetano (aliás devo muito a ele), no Pinheiros com Claudinho (também foi super importante para minha carreira) e meus anos na Itália. Foram anos onde não só joguei muito feliz, mas fiz amizades que tenho até hoje e levarei pra vida inteira. Isso vale mais do que qualquer medalha.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: