Flávia Assis não suporta preconceito, expõe mágoa e troca BRASIL pela França

Flávia Assis não suporta preconceito, expõe mágoa e troca BRASIL pela França

Bruno Voloch

15 Setembro 2015 | 13h48

Ela é mais uma entre tantas jogadoras que deixa o BRASIL desmotivada. Sem motivação é pouco.

Flávia Assis vai jogar no vôlei da França a temporada 2015/16. A atleta assinou com o TFOC, conhecido como Terville Florange Olympique Club, e corre atrás de novos desafios. Principalmente respeito.

Aos 36 anos, a jogadora conversou com o blog. Corajosa, falou o que a maioria certamente tem vontade, mas por outras razões, prefere o silêncio.

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Flávia tem história. Passou pelos principais clubes brasileiros como Osasco, Rio de Janeiro e São Caetano. Só no tradicional Pinheiros foram 3 temporadas.

Jogar na Europa não será novidade.

Flávia morou na República Tcheca em 2012 onde atuou pelo VK Prostejov. Na última temporada vestiu a camisa do Pavia, da Itália.

Por que você optou em continuar fora do BRASIL?

São vários fatores. Infelizmente, sofremos ainda no BRASIL um enorme preconceito em relação a questão da idade. Tenho 36 anos e me sinto ótima em todos os sentidos.

Pode ser mais clara?

Olha, você acaba infelizmente perdendo a motivação, essa é que é a grande verdade. Não existe mais aquele frio na barriga. São as mesmas pessoas, as conversas de sempre e cansa. O pessoal  brinca com o lance da idade, mas tudo tem limite. O meu chegou. Tem dia que você dá uma risada, mas é desagradável ouvir diariamente. Não rola. Não me sinto velha como dizem. Me sinto sim com muito gás ainda.

Você parece muito magoada …

Claro. No fundo magoa muito sim. Não tolero. É preconceito mesmo. Aquela coisa de que nossa … você ainda está jogando? Sim. Estou e se me botar para treinar com as mais novinhas garanto que não fico atrás. Esse é um exemplo. Não posso ser injusta e radicalizar, também recebia elogios no BRASIL. Fato é que joguei a temporada na Itália e ninguém comentava a questão da idade. Não tive nenhuma lesão. Zero. Teve gente que só soube quantos anos eu tinha na festa de encerramento da temporada do time. É uma diferença de mentalidade absurda.

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E como foi sua temporada na Itália?

A temporada no Pavia foi muito interessante especialmente porque pela primeira vez na minha carreira joguei de ponteira. E consegui sucesso graças a minha base e formação. Não é fácil. Fui central a vida toda. Consegui desempenhar muito bem essa função de ponta e marquei mais de 300 pontos no campeonato. Saí orgulhosa. Fui valorizada. Ponto. Joguei todas as partidas do time na competição.

E por que não renovou?

Sim, o clube me chamou. Dentro de quadra foi tudo perfeito. Fora de quadra nem tanto. Me refiro a questões financeiras e nem por isso deixei de ser comprometida com meu contrato. Acontece que pesa numa decisão futura, nesse caso específico senti mais segurança na proposta da França e por isso resolvi sair da Itália. O mais importante é que deixei as portas abertas.

E qual era a sua rotina antes de sair do país?

Minha rotina era em São Bernardo, clube que admiro em todos os sentidos. Estava mantendo a forma por lá e quase ‘casamos’. O problema é que estava comprometida com a França e não podia voltar da minha decisão. O William (técnico) queria muito que eu ficasse. Fica meu agradecimento ao São Bernardo e deixo claro que tenho certeza que muito em breve estarei jogando pelo clube novamente.

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Então significa que você ainda pode jogar no BRASIL? É isso?

Eu penso que sim. Nada é definitivo. Sou uma mulher autêntica e falo o que penso. Disse o que passei e senti de perto. Mas como falei não fecho as portas de forma alguma. São duas coisas distintas.

Você jogou nas seleções de base do BRASIL. Como vê esse momento de crise nas seleções infanto e juvenil?

Falta base. Estão aparecendo jogadoras feitas e que precisam ser cuidadas. São muito jovens e que necessitam de fundamentos. Estão pulando etapas e não é assim que funciona. Falo isso pelos ótimos técnicos que tive na carreira. Infelizmente essas gerações estão vindo assim. São grandes e acham que estão prontas. No nosso tempo a gente era mais frágil, tinham mais cuidado. Tamanho não significa tudo. Parece que é tudo, mas não é. Vestem a camisa da seleção e as vezes não sabem o que está acontecendo. Na hora de jogar, a parte fraca e desprotegida aparece e reflete nos resultados.