José Roberto Guimarães fez a parte dele. Não aceitar a convocação é um direito delas

José Roberto Guimarães fez a parte dele. Não aceitar a convocação é um direito delas

Bruno Voloch

25 de abril de 2019 | 07h52

Conforme o blog divulgou com exclusividade, na lista dos 30 nomes para a VNL fazem parte jogadoras como Carol Gattaz, Léia, Michelle e Rosamaria, todas ainda envolvidas na final da Superliga entre Minas e Praia Clube.

E por que elas em especial?

Porque existe a real possibilidade das 4 por exemplo declinarem da convocação e aumentarem a incrível lista de dispensa, algo inédito na trajetória de José Roberto Guimarães como técnico do BRASIL.

Se isso acontecer, e não é difícil, fica no ar a sensação de que não se trata de uma simples turbulência. Os sucessivos pedidos de dispensa envolvendo as jogadoras Thaísa, Dani Lins, Camila Brait, Tássia e Gabi Cândido chamam atenção e deixam o treinador preocupado. Isso sem contar que Adenízia, que sem saber que não estaria mais nos planos do treinador, se antecipou e avisou estar abrindo mão da seleção.

Não creio honestamente em boicote como sugere o tema, pelo menos levando-se em conta as justificativas oficiais apresentadas por Thaísa e Dani Lins, por exemplo, que não aceitaram o chamado por causa de problemas físicos. O corpo delas não suporta mais a carga exigida entre clube e seleção.

Portanto, boicote seria um termo forte e inapropriado para a debandada na seleção feminina, de acordo com o próprio Zé Roberto. Em conversas reservadas, ele não sugere esse tipo de comportamento das meninas e diz estar consciente de que fez a parte dele convocando as melhores em atividade por aqui.

Eis a lista completa:

A questão para o pedido de dispensa de Camila Brait é pessoal, afinal foram dois cortes consecutivos em 2012 e 2016 – as duas últimas Olimpíadas. Mas não está descartado que a líbero trabalhe novamente com o treinador em 2020, ano de ajustes para Tóquio. Tássia tem problemas de saúde na família e Gabi Cândido divulgou nas redes sociais, sempre lá, que tem síndrome do pânico.

Fato é que o vôlei sofre com a falta de diagnóstico para determinadas questões que surgem ainda nas categorias de base da seleção, são refletidas diretamente nos clubes e até hoje são mal resolvidos.

Elas sentem demais a pressão.

Mas ela não é a única a se sentir pressionada ou não estar ligada à importância de defender a seleção. Nos bastidores, atletas confidenciam que é difícil responder à altura no time nacional e que seria mais interessante se refugiar nos clubes onde teoricamente ganhar ou perder não faz diferença. Fontes ligadas ao vôlei, até mesmo jogadoras mais veteranas, falam numa geração sem vontade e caracterizada pelo comodismo de atuar nos clubes, onde recebem seus salários.

Muitas das atletas que poderiam estar na seleção conquistaram objetivos fora de quadra muito rapidamente, passaram a ser mais valorizadas, andam com celulares nas mãos, ficam a maior parte do tempo nas redes sociais e acabam se expondo desnecessariamente quando perdem partidas importantes. Pior. Não têm condições de suportar emocionalmente situações de cobrança. E não enxergam a seleção como prioridade.

Zé sabe exatamente o momento do BRASIL. Tem de ganhar jogos importantes, se classificar para as grandes competições e trabalha para se manter entre os melhores do mundo.

A Confederação Brasileira de Vôlei não oferece a seus jogadores acompanhamento psicológico e alerta sobre os cuidados que cada um deveria ter com sua própria imagem nas redes sociais. Mas esse trabalho ainda tem brechas. Não é suficiente. A CBV precisaria fazer mais.

Há uma outra questão envolvendo algumas dessa atletas em relação às convocações. Jogadoras, em alguns casos, preferem ficar na reserva de suas respectivas equipes, com salários em dia, em vez de buscar espaço em times menores ou de menor expressão para aparecerem no mercado. São raríssimas as exceções que topam esse caminho árduo. Gabizinha, que vai se despedir do Minas em breve para atuar no Vakifbank (da Turquia), é uma delas. Jogadora que nunca se omitiu, dona de personalidade rara e que se tornou imprescindível ao Brasil aos 24 anos de idade. Por essas e outras que o técnico resolveu apelar para atletas que foram bicampeãs olímpicas, experientes e do tempo em que defender a seleção era o sonho de todas elas. Nos bastidores do vôlei, o que se comenta é que o BRASIL ficou em segundo plano na carreira de algumas jogadoras.

Zé Roberto sabe, porém, que a recusa não serve como desculpa para os resultados ruins obtidos na temporada passada. São praticamente 15 anos no comando e é natural que aconteçam problemas de relacionamento, divergências sobre os métodos de treino e o desgaste natural de qualquer relação com o tempo. O técnico está sujeito a isso.

Ocorre que ele se prepara para ter mais baixas. Drussyla, conforme o blog antecipou já foi, e Fernanda Garay está fora. A primeira por questões físicas. A segunda por opção. O técnico poderá então se agarrar ao passado e trazer de volta atletas mais bem preparadas emocionalmente e que valorizam a seleção para tentar livrar o país do risco de não participar da Olimpíada de Tóquio, como Sheilla e Fabiana.

Mas mesmo elas, assim como Natália, não serão eternas.