Mariana Galon se solidariza: ‘Não somos brinquedos, somos pessoas. O vôlei no BRASIL pede socorro’

Mariana Galon se solidariza: ‘Não somos brinquedos, somos pessoas. O vôlei no BRASIL pede socorro’

Bruno Voloch

22 de junho de 2020 | 08h41

O caso envolvendo a líbero Aninha de Curitiba repercute.

E positivamente, no sentido que várias companheiras de profissão se solidarizam com a situação relatada pela atleta.

Uma delas é Mariana Galon. Há quase 1 ano, a levantadora de apenas 26 anos, teve que se aposentar de maneira precoce. Ela foi diagnosticada com uma miocardiopatia hipertrófica quando fazia a pré-temporada pelo Curitiba/Vôlei.

Mariana, seguindo a linha, resolveu falar. Contou sua trajetória no esporte, período de aprendizado, alegrias e títulos. Passagem também marcada por graves problemas financeiros, desrespeito, calotes, desespero e profundas decepções.

Como você iniciou no esporte?

‘Com 16 para 17 anos, resolvi junto com minha mãe ir fazer um teste na equipe de São Caetano, onde para mim sempre foi uma das maiores referências na formação de atletas. Cheguei e fui aceita, porém tinha um pequeno problema. Na república onde moravam as meninas não tinha mais espaço para mim e eu como uma jovem atleta, cheia de sonhos, resolvi ficar e aceitar o fato de eu não ter um quarto, muito menos onde colocar roupas. Ficava pulando de quarto em quarto com meu colchão e minha mala enorme.

Vocês recebiam ajuda de custo?

Quem nos pagava (infanto/juvenis) era a prefeitura e é óbvio que o salário atrasava 3,4 meses. Cedo ou tarde a gente recebia os R$ 400,00. No meu caso.

O que achou da experiência em São Caetano?

Sofri bastante em São Caetano nos 3 anos que estive por lá, sabia que não iria ser fácil, mas admito que aprendi e evoluí muito como atleta, tive experiências incríveis, técnicos, comissão e pessoas que admiro muito, títulos que me trouxeram muitas alegrias.

Por que mudou para a Sogipa no sul?

Eu poderia ter ficado em São Caetano quando estourei de juvenil para adulto, mas resolvi dar um passo para trás e jogar uma Superliga B, ser titular de uma equipe que tive o prazer de liderar e foi uma das melhores situações que pude viver como pessoa e atleta. Maravilhoso.

Depois da Sogipa você foi para Araraquara. Que tal?

Bem, Araraquara já não tinha uma boa reputação. Não pela cidade e sim pela gestora (Sandra Leão). Acreditei que poderia ser melhor aquela temporada. Começamos recebemos normal, tínhamos moradia, alimentação e andava de ‘bike’ porque não tinha carro e nem as outras meninas. No meio da temporada, recebemos a notícia que não teria mais grana para nós. Como assim? No meio da temporada? É, infelizmente acontece muito aqui no BRASIL. Foi quando o Luizomar de Moura de Osasco junto com seus patrocinadores na época, Nestlé, resolveram nos amparar até o final da temporada.

E por que renovou?

Porque voltamos com a promessa que haveria um possível patrocinador. Começamos a treinar, nada de uniforme, nada de contrato, começamos a achar aquela situação bem estranha. Perguntamos e nada. Apenas respostas vagas e sem nenhuma informação. Resumindo, calote, de mais ou menos 2 meses, e naquela temporada eles não disponibilizaram moradia, então todo mundo tinha um contrato de 12 meses dos apartamentos e casa que alugamos. Desespero total. Fomos até a prefeitura e explicamos tudo o que tinha acontecido, por incrível que pareça nem eles sabiam. Foram anjos, afinal nos pagaram a ajuda que tinham prometido.

Depois de Araraquara você foi parar no Praia Clube.

Eu estava vivendo um sonho, fui lá para ser terceira levantadora. Eu estava jogando ao lado de campeãs olímpicas como Fabiana e Walewska. Treinava igual louca também, topava fazer qualquer posição, estava ali para aprender. E aprendi. Não tive oportunidade alguma, mas eu entendia o meu papel naquele time. Minha única frustração com a equipe do Praia foi que eles não me levaram na premiação do terceiro lugar da Superliga e acabei ficando sem medalha.

E em Valinhos como foi?

Em Valinhos atrasava de vez em quando, mas aparecia na conta. Meu problema infelizmente era com alguém que costumava respeitar muito, o André Rosendo, técnico na época. Parecia que ele falava outra língua. Falta de respeito com as pessoas e atletas. Esquecem que nós também somos seres humanos.

O que você resolveu fazer depois de Valinhos?

Voltei para Curitiba depois de 7 anos. Meu drama com o Curitiba/Vôlei foi não ter sido amparada. Como todos sabem, os contratos na maioria dos times de médio para baixo nível não são com carteira assinada, ou seja, zero segurança que você vai receber. Nas férias não recebemos por 2 meses.

Foi quando surgiu seu problema no coração. Certo?

Sim. Eu já estava sem receber esses dois meses, louca para a temporada voltar e já com o diagnóstico que eu não poderia mais jogar. Sem contrato assinado, sem nada, Gisele Miró, dona do time me ofereceu um cargo na área administrativa caso se ela conseguisse um patrocínio, que não veio. Mas eu como não queria ficar parada, perguntei a ela se eu poderia ficar ajudando, seja nos treinos com o Duda, participando da Lei do Incentivo. Fiz tudo de coração aberto, mas no fundo esperando alguma ajuda também. Foi quando, eu gentilmente pedi para Gisele pelo menos 300, 400 ou 500 reais para bancar minha gasolina.

Conseguiu?

A resposta foi curta e grossa: não tenho dinheiro.

Qual foi sua reação?

Percebi que era o fim do meu vínculo (infelizmente) com o Curitiba. Eu totalmente perdida, sem amparo nenhum do clube, desesperada, cursando faculdade de Administração na Universidade Positivo, que diga-se de passagem, nos deu bolsa de 100%.

Como você se virou?

Eu tive e tenho o amparo ainda dos meus familiares. E quem não tem esse apoio, já pararam para pensar?

Esse episódio relatado pela Aninha surpreendeu muita gente. Agora o seu. Será que existem outras atletas na mesma situação?

O que eu digo para as atletas que já passaram e aquelas que passam por qualquer tipo de situação é que não se calem. O vôlei no BRASIL está pedindo socorro e não é de hoje. Nós temos sentimentos, temos contas para pagar. Não somos brinquedos, somos pessoas. Não nos façam de palhaços e se coloquem no nosso lugar. Vamos nos unir. Chega.

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