Riad se revolta com nova crise, prova calote do Corinthians e desabafa: ‘CBV é incompetente e não olha para os atletas’.

Riad se revolta com nova crise, prova calote do Corinthians e desabafa: ‘CBV é incompetente e não olha para os atletas’.

Bruno Voloch

13 de agosto de 2019 | 21h43

Crise. Novamente crise. E isso dois dias depois do BRASIL se classificar para os jogos de Tóquio em 2020.

Isso antes mesmo da Superliga começar.

O blog conversou com Riad, ex-jogador da seleção e que fazia parte do elenco do Corinthians/Guarulhos pivô da crise. Os jogadores acusam a CBV, Confederação Brasileira de Vôlei, de infringir um dos itens do regulamento da Superliga. Fair Play financeiro.

A entidade teria aceitado a volta de Montes Claros que emprestou o CNPJ ao Corinthians/Guarulhos para que o mesmo jogasse a Superliga passada. Como não honrou os compromissos e não teve a quitação assinada pelos atletas, não poderia, em tese, voltar ao campeonato. Não com o mesmo CNPJ.

Segundo consta, o Corinthians/Guarulhosdeve 3 meses de salários.

Riad, em conversa com o blog, explicou detalhadamente a dívida. O blog teve acesso aos recibos que teriam sido pagos por um dos patrocinadores e os valores jamais chegaram aos jogadores.

O jogador desabafou. Criticou a Comissão de Atletas, a CBV e reclamou da falta de solidariedade:

O que na verdade os dirigentes ou os responsáveis pelo projeto no Corinthians passaram oficialmente para vocês?

No primeiro dia, logo na nossa apresentação, o Anderson Marsili (diretor), nos informou que tinha que fazer um corte de 30% no nosso contrato porque uma empresa que entraria via prefeitura de Guarulhos desistiu na última hora devido um equívoco que o prefeito teria cometido com o dono da empresa. Ele nos prometeu que no máximo em dois meses conseguiria reaver esse valor.

E conseguiu?

Isso nunca aconteceu. Depois em dezembro do ano passado ele nos informou que não poderia pagar aquele mês porque o nosso patrocinador master não teve os meses de novembro e dezembro favorável nas vendas. Falou que a empresa estava até demitindo funcionários para equilibrar as contas, mas que no dia 20 de janeiro ele pagaria dois meses.

Ele cumpriu?

Não. Chegando no dia 20 ele nos ligou dizendo que teve uma reunião com o prefeito de Guarulhos e o Thiago Nagumo (dono de uma rede de supermercados). Afirmou que a coisa era maior do que imaginávamos. Era uma briga política entre os dois e que, segundo o Anderson, o Nagumo tinha dito que enquanto o prefeito não resolvesse essa questão, ele não repassaria mais a verba paro vôlei.

Isso realmente aconteceu?

Mentira dele. Eu encontrei com o Nagumo semana passada, nos falamos pelo celular e me contou toda a verdade. Essa reunião nunca existiu. Foi invenção do Anderson. A verdade é que no início da temporada o Anderson pediu um adiantamento das parcelas do patrocínio que era de um milhão de reais em 10 parcelas que foram adiantadas em 4 parcelas de R$ 250 mil a pedido do Anderson. Logo, chegando em dezembro o dinheiro acabou. Eu tenho esses comprovantes dos depósitos e posso provar.

Como você se sente passando novamente por essa situação?

Decepcionado e totalmente desprotegido. É a quarta vez que passo por essa situação. Isso precisa acabar. Todo ano um ou até dois clubes, como aconteceu esse ano, fazem isso com os profissionais. Estamos à mercê de promessas. Nós damos nosso 100% no dia a dia e somos profissionais ao extremo, tanto que times que passaram por essa situação se classificaram para os playoffs. E no final, tudo fica por isso mesmo e temos que lutar sozinhos. Pior é que a equipe devedora ainda continua no cenário. Vergonhoso.

Como a CBV reagiu? Vocês foram procurados? Houve solidariedade?

Nunca fomos procurados pela CBV e nunca houve solidariedade de nenhum representante da entidade com os atletas. Quarta-feira os clubes terão uma reunião na sede da entidade e espero que eles pressionem a CBV nessa questão. Infelizmente, só ela pode mudar tal cenário e nos dar força pra resolver isso e não acontecer mais com nenhum atleta.

E a comissão dos atletas? Ninguém se manifestou? Será que acham essa situação normal?

Ninguém nos procurou. Ninguém se manifestou. Começo a acreditar sim que devem achar essa situação normal porque como eu disse não é a primeira vez que passamos por isso. Eu mesmo vivi há 3 anos onde fui muito prejudicado e ainda sofro consequências até hoje e tive que me virar sozinho. Ninguém me ligou para saber de nada.

Mas essa comissão não foi criada para brigar por vocês?

Sim, mas na prática não acontece. Essa comissão foi justamente criada para nos proteger e brigar junto com a gente numa situação dessa. E agora? Sumiram. Nós temos 3 gerações de ouro e 3 de prata e como ainda não temos voz ativa dentro da modalidade mais vitoriosa do esporte brasileiro? Qual é o real interesse da comissão e para que ela foi criada?

Por que o vôlei brasileiro ainda encontra espaço para tanto amadorismo?

Porque a CBV é incompetente e não olha o lado dos atletas e dos clubes. Temos hoje empresas grandes investindo no voleibol brasileiro no feminino e no masculino. Gente ainda séria. Por que não fazemos como na Itália? Lá a Liga cuida do campeonato e a Federação da seleção. Olha o sucesso que é. Eu joguei 5 anos na Itália e sei o que estou falando. Aqui tinha que ser assim. Deixem a Superliga nas mãos de quem realmente tem interesse pelo crescimento e principalmente organização do voleibol aqui no BRASIL.

Mas Osasco anunciou hoje o retorno do Bradesco, um grande patrocinador.

Exato. O Bradesco voltou agora para Osasco. Iniciativa maravilhosa e parabéns para aqueles que dirigem e comandam Osasco. E aí já chega pegando uma bomba dessas? Qual a imagem que a CBV e a nossa Superliga vão passar hoje para um grande investidor que queira apoiar o voleibol? Eu coloco milhões no meu time e nem o nome da minha marca pode ser falada na transmissão? Não posso colar um adesivo na quadra pra expor minha marca? Na Itália e em tantos países, é assim. Se não fossem os torcedores, apaixonados pelo vôlei que lotam os ginásios, nós jogadores, os patrocinadores sérios que ainda temos e o grande currículo do voleibol brasileiro, não sei se hoje teríamos campeonato.

Você tem muita coragem em desabafar. Não teme sofrer represália?

Medo nenhum até porque só disse a verdade. Sempre fui um cara de personalidade e brigo pelos meus direitos. Eu não tenho voz ativa para mudar tudo da água para o vinho. Mas como eu disse, nós temos 3 gerações de ouro e 3 de prata. Sem mencionar as dezenas de outras conquistas. Então espero sinceramente que realmente alguém com voz ativa atue e encare essa situação para melhorar esse cenário desorganizado e desrespeitoso do nosso voleibol.

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