Thaísa após caso ‘Aninha’: ‘Dá nojo. Superliga virou bagunça. CBV fecha os olhos e não tem credibilidade’

Thaísa após caso ‘Aninha’: ‘Dá nojo. Superliga virou bagunça. CBV fecha os olhos e não tem credibilidade’

Bruno Voloch

24 de junho de 2020 | 10h05

Os tristes episódios relatados por ex-jogadoras de Curitiba chegaram ao conhecimento das jogadoras da seleção brasileira.

E Thaísa não se calou. Alías, se revoltou. De vez.

Ícone e conhecida pelo temperamento forte e rara personalidade, a bicampeã olímpica resolveu se manifestar. Como tinha que ser.

Só que a crise em Curitiba fez Thaísa ir além.

Nessa entrevista ela deixa claro que o vôlei brasileiro precisa de mudanças urgentes. Dentro e principalmente fora de quadra. Começando na CBV, Confederação Brasileira de Vôlei.

Segunda ela, a entidade não passa credibilidade, confiança e seriedade. ‘Por isso a Superliga virou uma bagunça’.

Nas redes sociais, a maioria cobrava um posicionamento das jogadoras de seleção sobre o tema. Por isso você resolveu falar?

Primeiro deixo claro que essas meninas levantaram uma bandeira porque várias jogadoras devem estar passando por isso. Falei só agora porque simplesmente na maioria das vezes a gente não fica sabendo. As notícias chegam pela mídia e é justamente quando nós, de seleção, somos informadas. Queriam que eu me posicionasse. Nunca deixei de dar minha opinião e não seria agora.

Qual foi sua reação?

Eu simplesmente fiquei chocada com o que li. Atletas sendo tratadas como objeto, descartáveis. E não digo apenas pela Aninha e Carol. Já parou para pensar quantas sofrem caladas e não puderam falar?

Será que mudarão a postura a partir de agora?

Sim. Deveriam. Elas precisam sim, falar. Meter a boca. Sem medo de represália ou ameaças. Temos leis que nos protegem, ou pelo menos deveriam proteger. Os clubes não podem fazer o que bem entendem com as jogadoras. Se essas meninas podem provar, e pelo jeito podem, dever ir até o fim. Não recuar. Coerência e veracidade dos fatos nas mãos.

Como reage essa suposta passividade?

Fico indignada. Me dá nojo ler o que essas meninas passaram. Eu fui tratada assim na Turquia. Objeto, como elas disseram. E sou bicampeã olímpica. Dá para pensar o que elas passam? E as atletas que não tem a nossa visibilidade? Acabou comigo quando acompanhei os fatos. Devastada. Me enjoa só de pensar como alguém dorme em paz sabendo o que está causando na vida das pessoas.

Essa relação entre jogadores e clubes precisa ser discutida?

Sempre. Agora então… Nós é que entramos em quadra. Não tem espetáculo ou jogo sem a gente. As jogadoras são as verdadeiras artistas. Quem faz o show somos nós e não os clubes ou a CBV. Sem nós não tem Superliga.

E por falar em CBV. Como vê a postura da entidade nesses episódios?

Simplesmente fecha os olhos para os times que não pagam. E não falo só do feminino não. O masculino também. Pagam quando querem e se querem. Pagam quando podem. Tem que existir de verdade uma espécie de ‘nada consta’. Está 100%, joga. Não está, fora. E não só salários. Que se faça inspeção nos ginásios, estrutura dos clubes, condições de moradia, plano de saúde. Porra, falo do básico. Deveria ser obrigação. A CBV tem que ir fundo nisso e se pronunciar. Mas isso pode custar caro.

Caro? Explica?

Sim, porque hoje temos 12 times. Pelo menos no papel. Mas talvez boa parte dessas estruturas não atendam as exigências se realmente tivermos órgãos atuantes. Podemos ter desemprego para muita gente se a CBV realmente  colocasse em prática e exigisse que as regras fossem cumpridas não apenas no feminino, mas no masculino também. As atletas vão ser mais prejudicadas porque vão ficar sem time? Pode até ser que sim. Concordo que é melhor passar por alguns problemas no início e cortar o mal pela raiz do que ficar empurrando com a barriga e fechando os olhos para essa bagunça que virou a Superliga.

Você no fundo acredita mesmo nessa ‘mudança’ na ou da CBV?

Olha, tem que arrancar as raízes ruins para pensar em mudanças reais. Enquanto não fizerem isso, não se tornarão uma entidade respeitada e confiável de fato. Acho que com isso pode acontecer, diferente do que muitos esperam. Pode atrair patrocinadores porque o vôlei hoje no Brasil, acredito eu que não tem mais investidores porque não passa tanta seriedade. Organização realmente. Basta ver o que acontece com as atletas e a má gestão de alguns times mostrando falta de profissionalismo. Eu acredito que mostrando o que queremos, uma gestão responsável e realmente séria no nosso esporte, possa trazer mais patrocinadores querendo fazer parte disso. Começando pela CBV. Se ela passasse credibilidade, confiança e seriedade tenho certeza que seria outra história. E enquanto não tomarem medidas sérias e firmes nunca serão.

A Comissão se pronunciou em nota oficial. Que tal?

Essa Comissão de Atletas precisa trabalhar como porta-voz da gente. Elo entre jogadores e CBV. Simples assim. Mas com um detalhe: não aceitar as coisas passivamente. Não podem ser coniventes. Da minha parte, eu vou buscar quem eu conheço. Gente grande para tentar dar suporte para essas meninas. Mas deixo claro que só poderia falar sobre o tema se soubesse, como agora, dos acontecimentos. Nunca irei deixar de falar o que penso. É meu jeito. Não consigo.

Você consegue chegar a alguma conclusão?

Lamentavelmente sim. É por isso, agora entendo, porque tantas meninas param no meio do caminho. Desistem, não por falta de espaço ou talento, mas também por fatos deploráveis como esses que foram divulgados.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: