Tiffany pontua, incomoda e desabafa: ‘Me sinto atingida como ser humano. As pessoas livres de preconceito me apoiam de verdade’.

Tiffany pontua, incomoda e desabafa: ‘Me sinto atingida como ser humano. As pessoas livres de preconceito me apoiam de verdade’.

Bruno Voloch

12 Janeiro 2018 | 07h22

Hoje é dia dela. É dia novamente de Tiffany, estrela de Bauru na Superliga.

O adversário, curiosamente, será parceiro do clube paulista a partir da próxima temporada. Isso não significa dizer que Bauru terá seu trabalho facilitado. Pelo contrário. Do outro lado terá muita gente querendo mostrar serviço.

Por enquanto porém quem tem mostrado serviço e correspondido é Tiffany. A impressionante média de pontos desde que estreou na competição deve ser mantida logo mais ainda que a partida possa sugerir um 3 a 0.

Tiffany falou com o blog.

Ela diz estar tranquila diante de tanta polêmica envolvendo sua participação na Superliga. Deixa claro que está dentro da lei. Garante que não é melhor ou pior que as demais opostas em atividade. Fica feliz pela solidariedade.

Tiffany no entanto admite que se sente atingida como ser humano e critica aqueles que remam contra e se julgam especialistas sem noção da causa.

Você acha que existe um movimento para desestabilizar a Tiffany emocionalmente?

Não acredito que seja essa a intenção. As pessoas precisam se libertar de suas concepções e estarem abertas para aceitar as diferenças. O que tenho sentido é que a falta de informação tem causado reações contrárias a minha participação. Mas o estatuto do COI (Comitê Olímpico Internacional) é claro e os meus exames estão dentro de toda normalidade exigida.

Isso tudo é sinal de que como jogadora você está incomodando?

O que eu digo é que as mensagens de carinho e apoio que tenho recebido da torcida, dos amantes do vôlei e das minhas companheiras de equipe são maiores do que qualquer opinião contrária. Estão incomodados aqueles que não entendem. As pessoas temem o que não entendem e buscam explicações para justificar seus medos. Muitas dessas explicações distorcidas.

A Tiffany de fato tem feito ou pode fazer a diferença?

Como toda jogadora oposta que recebe a maioria das bolas e tem papel de definidora eu acredito que posso somar ao time. Eu não estou acima da média de nenhuma jogadora que esteja disputando a competição. Eu estou fazendo o meu melhor para ajudar coletivamente o time e chegarmos em uma boa posição na Superliga.

Você acredita em todas as mensagens de solidariedade e apoio?

Tenho recebido várias manifestações de carinho da torcida e dos amantes do voleibol em geral. As pessoas que são livres de preconceitos me apoiam de verdade e vejo que a solidariedade deles é real. Sou reconhecida nas ruas, as pessoas pedem pra tirar foto, acho isso muito bonito e me sinto querida.

É verdade que você foi xingada no Rio pela torcida do Fluminense no fim do ano passado?

Eu não ouvi nenhum xingamento. Não posso dizer que não houve. Mas quando estou na quadra, estou focada a ajudar o time. A torcida de qualquer time adversário tentará sempre empurrar o seu time, mas depois do jogo, nós continuamos sendo profissionais. Várias pessoas demonstraram carinho e vieram até mim. Particularmente não senti ou ouvi nenhum tipo de ataque por parte da torcida.

E a pressão no dia a dia?

A pressão do dia a dia é igual a qualquer jogadora. Eu tenho um papel a ser desempenhado dentro do time e acho que estou conseguido realizar bem. O que acontece fora do ambiente do time e fora da quadra não é uma pressão que estão fazendo diretamente a minha pessoa, pelo menos tento não pensar dessa maneira. É uma pressão e uma comoção que pretendem fazer para que as regras sejam alteradas. Como ser humano eu me sinto atingida pois não estou fazendo nada fora da lei. Como profissional, eu sabia que não seria fácil ser aceita. Me consideram como um marco na história do esporte, eu tento me considerar e me ver como uma pessoa que está indo atrás de sua felicidade, sem desrespeitar ou diminuir ninguém.

Como você enxerga essa movimentação indireta para tentar reverter esse cenário político?

Eu não vejo os comitês de outras ligas ou os profissionais de outros países tentando contestar as leis sem pesquisas e sem estudos. No BRASIL somos um povo muito caloroso e que muitas vezes não sabe diferenciar o que é pessoal e profissional. Não estão levando em consideração as leis e as entidades que regem o esporte com essa movimentação. Estão buscando tornar legítimas suas opiniões e com isso me invalidar como jogadora.

E os médicos que são contrários?

Não se pode agradar todo mundo. Eu não estou fazendo nada que o COI e a FIVB (Federação Internacional de Vôle) não tenham me autorizado a fazer. Aqueles que decidiram opinar não mostraram nenhum estudo com pessoas transexuais que atestam minhas vantagens. Até que eles apresentem esses estudos ou até que o COI reverta a lei, eu seguirei jogando e fazendo o que me deixa feliz. As pessoas deveriam tentar fazer o mesmo.