Da várzea para o mundo

Estadão

10 Dezembro 2009 | 17h25

 Embrião corintiano foi um time amador chamado Botafogo do Bom Retiro, que desfilava garra pela Várzea do Carmo

SÃO PAULO – Pode ter sido por volta das 20 horas, talvez 20h30 daquela noite de 1° de setembro de 1910. A história nunca é precisa, ainda mais quando se fala de fatos ocorridos há quase 100 anos.

Ninguém discute que Joaquim Ambrósio e Antônio Pereira (pintores de parede), Rafael Perrone (sapateiro), Anselmo Correia (motorista) e Carlos Silva (trabalhador braçal) fundaram, na esquina da Rua dos Italianos com a José Paulino, no bairro do Bom Retiro, um clube chamado Sport Club Corinthians Paulista. O nome foi inspirado no Corinthians inglês, que pouco antes assombrara os paulistas com futebol de nível desconhecido por aqui naquela época.

O que se perdeu na história foi que o embrião corintiano já existia alguns meses antes da excursão dos ingleses ou da reunião dos operários em uma esquina iluminada por lampiões. O time do povo, que hoje agrega milionários e necessitados, negros e brancos, judeus e árabes, nasceu na várzea. Era o Botafogo.

ELITE X VÁRZEA
Em 1910, o esporte trazido ao Brasil por Charles Miller ainda era amador no País. Se estava elitizado por clubes como o Paulistano, que desfilava classe para senhoras de guarda-chuvas nos Campos Elísios, o futebol via na periferia seus verdadeiros embates. Na várzea, literalmente. Porque era na campina formada às margens do Rio Tamanduateí que estava a Várzea do Carmo. Quando não inundava, servia para os homens que não podiam atuar entre os ricos treinar a modalidade importada da Inglaterra. Hoje esse espaço está encoberto pelo Parque Dom Pedro, por viadutos e prédios ali no centro da capital. Se o Corinthians foi fundado no Bom Retiro, sua essência nasceu às margens do Tamanduateí.

Aos domingos, jogava ali um time formado por moradores do Bom Retiro chamado Botafogo (que pode ser visto na foto ao lado). Ao menos seis jogadores que disputaram a primeira partida do Corinthians, em 10 de setembro de 1910, contra o União da Lapa, faziam parte dessa equipe e foram convidados a atuar pelo novo clube. O espírito já era de time raçudo, espelho de um sujeito chamado César Nunes, irmão de um garoto franzino na época, o Neco, que se tornaria o primeiro grande artilheiro do time alvinegro.

Os cinco operários fundadores, ou os seis jogadores do Botafogo, mal sabiam o quanto afetariam a vida de milhões de pessoas. Para eles, era só uma diversão para as tardes de domingo, mas eles estavam criando o único grande clube brasileiro com origem operária. Se frequentassem hoje o Pacaembu, os cinco se surpreenderiam ao ouvir da boca de qualquer fiel que “só quem é corintiano sabe o que é”.

O NÚMERO
6

jogadores do Botafogo do Bom Retiro estavam em campo na primeira partida da história do Corinthians, em 10 de setembro de 1910, contra o União da Lapa. Outros, como o artilheiro Amílcar, migraram para o time alvinegro quando este foi fundado.

Texto publicado no ‘Jornal da Tarde’ de 27/11/2009, em caderno especial