Grandes ídolos – Domingos da Guia

Estadão

05 de março de 2010 | 12h37

Domingos da Guia entra em campo pelo CorinthiansDomingos da Guia, o Divino Mestre, encantou com sua classe e técnica e entrou para história não só do Corinthians, mas do futebol brasileiro

SÃO PAULO – A imagem de Domingos da Guia está associada ao Rio. Carioca de nascimento, ele começou no Bangu e passou por Vasco e Flamengo. Mas aquele que é considerado em todas as listas como um dos maiores se não o maior zagueiro brasileiro de todos os tempos, atuou pelo Corinthians na década de 1940, quando já era um senhor trintão.

Foi o suficiente para entrar no Hall dos grandes defensores do Parque São Jorge. Coisa de gênio. Aclamado como o mais clássico dos beques, Domingos era chamado de Divino Mestre. Ou como uma edição do Jornal da Tarde de 1979 sentenciou: “Domingos, o rei dos zagueiros, um homem que representou para os defensores o que Pelé representou para os atacantes.”

E o próprio Domingos, então com 67 anos, revelou ao jornal que não deveria ter sido zagueiro na carreira, mas um “center-half” (um médio-volante). “Eu era um estilista, um jogador como Fausto, um center-half. Fui colocado na posição errada. Eu era um center-half no terceiro time do Bangu, aí o Conceição se machucou, me lançaram como zagueiro e nunca mais saí.”

Isso aconteceu na virada da década de 1920 para os anos 30, quando ele estreou no Bangu, então um time da zona rural no Rio de Janeiro. E foi jogando pelo Bangu, aos 18 anos, que Domingos da Guia chegou à seleção brasileira, em 1931.

Depois do Bangu, transferiu-se para o Vasco, foi negociado para o Nacional, de Montevidéu, do Uruguai, voltou para o Vasco, jogou no Boca Juniors e no Flamengo. Só chegou ao Corinthians em 1944, quando tinha 32 anos. Ná época, a transferência do Flamengo para o Corinthians foi considerada milionária: 735 mil contos de réis.

Muitos anos depois, ele revelou que, além da grana, tinha um motivo “especial” para trocar a Gávea pelo Parque São Jorge. “O Flamengo era a minha casa. Mas tinha um problema para os meus 1,95 m. A maior cama na concentração tinha 1,80 m. Não dava para dormir confortavelmente. Exigi uma cama maior, e veja só, fui acusado de ser vaidoso. Querer dormir bem era encarado como sinal de vaidade”, contou Domingos ao jornal O Globo, numa reportagem de 1995.

Nos quase quatro anos de Corinthians, entre 1944 e 1948, com 116 jogos, o Divino Mestre, pai do ídolo palmeirense Ademir da Guia, não marcou um único gol com a camisa do Alvinegro nem conquistou título algum. Mas nem por isso deixou de jogar o fino da bola na Fazendinha.

Ironicamente, a técnica de Domingos da Guia deu origem à expressão “domingada”. Isso porque ele é considerado o primeiro beque brasileiro a sair driblando atacantes adversários dentro de sua área. Driblava e saía jogando, com a bola no chão. Quando outros zagueiros tentavam imitá-lo, sem sucesso, criou-se a expressão “domingada”, ou seja, uma falha grotesca do becão.

Se na carreira Domingos da Guia se vangloriava de ter sido campeão por clubes de três países (Nacional, Boca Juniors e Vasco), o maior zagueiro de todos os tempos nunca esqueceu do pênalti que ele cometeu na Copa do Mundo de 1938, diante da Itália. “Não tive paciência, levei um pontapé do italiano e revidei”, dizia sobre a derrota de 2 a 1 para Itália. “Perdemos o Mundial ali.”

Domingos morreu aos 87 anos, vítima de acidente vascular cerebral, no Rio de Janeiro, em 2000. Se não ficou rico com o futebol, teve uma vida bem melhor do que muitos outros jogadores de sua época. Dizia torcer para o Bangu, onde encerrou a carreira, mas também para o Flamengo.

Domingos da Guia analisou sua carreira de zagueiro da seguinte forma: “Meu orgulho é que em 20 anos de carreira marquei jogadores como Leônidas, Heleno, Friedenreich, e, em todo esse tempo, só perdi uma bola para o Tim, num Fla-Flu. Ele me roubou a bola, o Flu fez o gol e nos ganhou por 1 a 0.” Isso é que era zagueiro!

Texto publicado no ‘Jornal da Tarde’ de 12/2/2010, em caderno especial

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