Nardo, campeão de 1954, não teme o esquecimento

Estadão

02 Outubro 2009 | 07h26

MARCEL RIZZO
JORNAL DA TARDE

SÃO PAULO – Aos 79 anos, Nardo se lembra com precisão da linha ofensiva dos times que defendeu nos anos 50. A memória só prega peça quando é para falar do destino dos companheiros do lendário título paulista do Quarto Centenário, em 1954 – conquistado em fevereiro de 55. “É difícil saber quem está vivo. Mas somos poucos, não?”

São poucos. Com a morte do lateral Idário, o “Deus da Raça”, há 15 dias, são três homens vivos que participaram de uma das principais glórias da história corintiana e que será tema recorrente até 1.° de setembro de 2010, quando o clube completará 100 anos.

O atacante Nardo é um deles. Gilmar e Cabeção, goleiros, completam a lista. Foram 21 campeões. Muitos morreram no esquecimento, caso, por exemplo, do ponta-esquerda Simão, falecido na miséria em São Caetano do Sul. Nem a data da morte é especificada em registros do clube.

“Os times esquecem um pouco de seus ídolos. O Palmeiras faz algo bacana, uma reunião anual de veteranos”, diz Nardo, ou Leonardo Colella, que recebeu o Jornal da Tarde em sua casa, no Ipiranga. Ele atuou no clube alvinegro nos anos 50.

A morte de Idário, que passava por dificuldades financeiras, fez o presidente Andrés Sanchez rascunhar um projeto: separar 2% das rendas dos jogos do Timão como mandante para uma conta, que seria usada para auxiliar ex-atletas em dificuldade.

“Ótima ideia. Eu, felizmente, consegui juntar alguma coisinha. Mas sabe o motivo: era um jogador normal, não era craque. Por isso sabia que tinha de fazer o pé de meia”, conta Nardo, que em 1957, logo que voltou da Itália – jogou na Juventus -, comprou a casa onde vive até hoje.

ESQUECIMENTO
Nardo, ainda trabalhando na venda de baterias, conta uma passagem interessante para mostrar que teve sorte na carreira. Em 55, a Juventus procurava um atacante no Brasil. Bateu na porta do Corinthians, que ofereceu dois atletas: Carbone e Nardo. “Me levaram. Deixaram o bom, e contrataram o médio”.

Apesar de achar que os clubes têm o dever de auxiliar ídolos, como projeta o Timão, Nardo não entende como atletas conseguem perder o bom dinheiro que se ganhava, mesmo naquela época. “Só de bicho (premiação) recebíamos uma fortuna. Minha mãe, palestrina, nem ligou quando fui jogar no Corinthians, porque apareci em casa com o primeiro bicho. Até quando perdia ela pedia o bicho (risos)”.

Nardo não teme cair no esquecimento, como ocorreu com Idário, cujo velório não foi no Parque São Jorge como ele gostaria. Morreu em um hospital público. “E ele é bem mais lembrado do que eu.”

Quanto a isso, Nardo teve azar. Poderia ter saído na foto do título. No único jogo em que atuou em 54 – ele era reserva de Baltazar e naquele tempo não havia substituição -, o Corinthians precisava ganhar do Santos para ser campeão. Perdeu por 4 a 1. No duelo seguinte, o empate contra o Palmeiras valeu a taça.

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